Altered Carbon é interessante, apesar de genérica

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Logo que Altered Carbon começou a ser divulgada, as semelhanças com Blade Runner foram apontadas com sabedoria (e com a cansativa dose de verborragia que só a internet sabe proporcionar). A nova série de sci-fi da Netflix se assemelhava muito com o filme de Ridley Scott, o que não necessariamente era uma coisa ruim. Afinal, a mesma internet que apontava o dedo para o possível kibe de Blade Runner era também a que batia palmas para o festival desenfreado de ~referências~ em Stranger Things.

O ponto positivo é que Altered Carbon pega a parte boa da referência. A atmosfera de Blade Runner fica restrita apenas à atmosfera mesmo, visto que a série caminha por estradas bastante diferentes do filme de 1982, mas não tão diferentes assim, Altered Carbon é inspirada, mas executa sua premissa de forma bastante familiar.

Baseada na obra de Richard Morgan, Altered Carbon se passa num mundo em que a raça humana não morre mais. Cada indivíduo possui um cartucho que armazena memória e personalidade e é inserido em um corpo após a morte do corpo anterior, tudo isso de acordo com o quanto a pessoa pode pagar pela “capa” que ela veste. Os mais ricos tem capas melhores, mais resistentes e bonitas. O corpo tornou-se um produto descartável.

A série foca em Takeshi Kovasc (Joel Kinnaman), um Emissário que é despertado em uma nova capa para investigar a morte real de Laurens Bancroft (James Purefoy). Kovasc passou 250 anos adormecido na prisão pelos crimes dos Emissários, um grupo que lutava contra a desigualdade patrocinada pelo Protetorado, o nome do Governo regente, e os Matusas, ricaços que, assim como Bancroft, clonam seus próprios corpos para terem capas sempre da mesma aparência, e não o que tiver à venda.

Com o retorno de Kovasc, a detetive Kristin Ortega (Martha Higareda) começa a investigá-lo por acreditar que ele é uma bomba prestes a explodir, mesmo que existam motivos ocultos para essa investigação que são explorados ao longo da temporada.

Com cinco episódios de dez vistos até o momento, Altered Carbon é uma série que segue cartilhas e fórmulas que poderiam ser bem mais trabalhadas.

Byron Mann e Dichen Lachman em cena da série. Mann interpreta uma das capas de Kovasc e Lachman vive a irmã de Kovasc, Reileen

Byron Mann e Dichen Lachman em cena da série. Mann interpreta uma das capas de Kovasc e Lachman vive a irmã de Kovasc, Reileen

Ainda é muito boa, é uma série inteligente ao trabalhar os traumas dos personagens ao questionar as consequências de se “viver várias vidas” e o que significa ser humano quando o corpo que habitamos é apenas um produto descartável.

Na visão do corpo como produto, a nudez constante ao longo dos episódios reflete esse desprendimento, objetificando um marombado Joel Kinnaman e o restante do elenco sempre que possível. Se o corpo é só uma capa que se compra por que nos preocuparíamos em cobri-lo? Mais importante, se o corpo é um produto, porque não representar na série o corpo no seu melhor estado físico e estético?

Altered Carbon trabalha com impulsividades geradas por traumas, desejo de vingança e o desprendimento do corpo como parte integrante do ser. A série tem bons conceitos e subtextos interessantes, mas os executa de forma muito protocolar.

Grande parte desses elementos são trabalhados no famoso buddy cop, com duas pessoas de personalidades diferentes tendo que investigar um crime, muitas vezes à contragosto. Seja com Kovasc e Elliot (Ato Essandoh), ou Ortega e Abboud (Waleet Zuaiter), ou então Ortega e Kovasc com o “plus” de tensão sexual.

É frustrante ver uma produção com conceitos e potenciais tão interessantes se mostrar tão protocolar quanto o que tenho visto até o momento. Não me entendam mal, Altered Carbon é uma série divertida e bem produzida, mas tinha potencial para bem mais, até pelo elenco que detém atores carismáticos com talentos pouco utilizados. Mais uma vez por culpa da escolha da série em caminhar pelo que é seguro.

Purefoy, um ator extremamente talentoso, não faz muita coisa além de sorrisos debochados de burguês e um nu frontal que ajuda a equilibrar a balança de nudez feminina versus masculina da série.

Martha Higareda e Joel Kinnaman em cena de Altered Carbon, investigação de crimes e conspirações com toques de tensão sexual

Martha Higareda e Joel Kinnaman em cena de Altered Carbon, investigação de crimes e conspirações com toques de tensão sexual

Kinnaman ainda consegue apresentar uma atuação competente, embora qualquer coisa depois do desastroso Esquadrão Suicida seria uma evolução para o ator. É interessante e divertido ver a química que Kinnaman tem com os personagens de Essandoh, Higareda e Chris Conner, o último no papel de Poe, a inteligência artificial que gerencia o hotel em que Kovasc mora.

Altered Carbon é uma série que merece ser vista, isso é inegável, é bem executada tecnicamente, tem boas atuações e  tem um roteiro que acerta às vezes. Ainda sim, o resultado final soa como algo genérico e esquecível.

O que não importa muito, a internet vai gritar aos quatro cantos que é a melhor série do mundo até a Netflix lançar alguma outra coisa genérica que vai cair no gosto popular.

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Este post só foi possível com a ajuda de Murilo Rosella. Ele e muitas outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui.

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