Crítica | 22 de Julho

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Assistir 22 de Julho e escrever sobre ele é uma tarefa difícil, dada a atual situação do país. Claro, é um tanto quanto catastrofista pensar que a história dos atentados ocorridos na Noruega em julho de 2011 possam se repetir aqui no país, mas ainda assim o filme toca nos extremismos e discursos de ódio disfarçados de opinião que, bem, não precisa passar muito tempo no Facebook para encontrá-los.

O filme conta a história real dos atentados ocorridos em Oslo, capital da Noruega, e no acampamento de verão na ilha de Utoya, ao norte da capital. Em 22 de julho de 2011, Anders Behring Breivik detonou uma bomba no centro de Oslo danificando prédios do governo norueguês no entorno, matando oito pessoas e dezenas de feridos. Horas depois, Breivik disparou contra estudantes de diversas nacionalidades que participavam de um acampamento promovido pelo Partido Trabalhista na ilha de Utoya. Entre 400 e 600 pessoas, a grande maioria adolescentes, participavam do evento. Breivik tirou a vida de 68 pessoas em Utoya e deixou dezenas de feridos.

Breivik foi preso e a investigação seguinte mostrou um indivíduo com posições políticas que se assemelhavam à extrema-direita. Na iminência dos ataques, Breivik postou um manifesto fortemente apoiado na xenofobia, islamofobia, conservadorismo, ultranacionalismo e contrário a ideais marxistas, feminismo e a multiculturalização do país.

Anders Danielsen Lie dá vida à Anders Breivik, responsável pelos ataques em 22 de julho de 2011 que vitimaram 77 pessoas na Noruega

Anders Danielsen Lie dá vida à Anders Breivik, responsável pelos ataques em 22 de julho de 2011 que vitimaram 77 pessoas na Noruega

Dirigido por Paul Greengrass (Capitão Philips, Voo United 93), 22 de Julho foca em três frentes: antes, durante e depois dos atentados contando a jornada de Breivik (Anders Danielsen Lie), o advogado encarregado de defendê-lo, Geir Lippestad (Jon Øigarden), e Viljar Hanssen (Jonas Strand Gravli), sobrevivente do ataque em Utoya.

22 de Julho é um filme belamente filmado e conduzido, Greengrass (que também assina o roteiro baseado no livro-reportagem de Åsne Seierstad) dosa a expectativa com cuidado, não saturando os momentos de terror ao evitar mostrar demais do massacre em Utoya, tendo cuidado em dramatizar para garantir o entretenimento inerente a qualquer filme, mas sem ultrapassar o bom senso e se transformar num espetáculo sádico.

Talvez um dos problemas mais evidentes do filme seja a falta de foco ao abordar a resposta do primeiro-ministro norueguês (Ola G. Furuseth) aos ataques. Um plot importante e interessante historicamente, mas que soou jogado na trama por um foco excessivo em Breivik e na recuperação de Viljar.

A produção também soube trabalhar a figura que é Breivik, Anders Danielsen Lie fez um excelente trabalho ao compor o personagem dosando a linha tênue que separa a psicopatia de Breivik com a humanidade. Passamos um bom tempo olhando para o personagem nos questionando, procurando sinais de arrependimento após cometer um crime tão bárbaro. É uma exploração coerente de um personagem que desperta interesse pela sua frieza.

Viljar (Jonas Strand Gravli) e seu irmão caçula Torje (Isak Bakli Aglen) se escondem do ataque de Anders Breivik na ilha de Utoya. Terror transposto de maneira cirúrgica para as telas.

Viljar (Jonas Strand Gravli) e seu irmão caçula Torje (Isak Bakli Aglen) se escondem do ataque de Anders Breivik na ilha de Utoya. Terror real transposto de maneira cirúrgica para as telas.

Eu me questionei muito se deveria assistir ou escrever sobre 22 de Julho (Deus sabe como carapuças estão servindo perfeitamente nessas eleições sem falar um nome sequer, talvez esteja cutucando um vespeiro). Questionei-me justamente por não saber ao certo se ele é um filme que causa mais mal do que bem.

Escrevendo esse texto eu percebo que ele é um filme que faz bem. Ele não se preocupa em estabelecer lados, porque não lida com um caso que trata de perspectivas, e sim da morte de inocentes por causa de posicionamento político. 22 de Julho mostra que, não importa o ponto de vista político que você tem, existem coisas que são indiscutíveis. Causar a morte de 77 pessoas é um crime grotesco, nenhum posicionamento político deve ser maior que a vida de uma pessoa, nenhuma “opinião” deve ser levada em consideração se ela coloca em xeque a vida de outra pessoa, seja ela parte de uma crença contrária a sua ou não.

Em tempos que se relativizam crimes contra líderes como Marielle Franco e Jair Bolsonaro, 22 de Julho é um filme que mostra que a humanidade deve prevalecer, e que essa mesma humanidade prova como existem mais pontos em comuns entre nós do que diferenças. Porque, no fim, quando se está sozinho e sem esperanças, sua humanidade é a única coisa que te separa de um monstro.

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