Crítica | American Vandal – 1ª temporada

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Em Outubro de 2014, Sarah Koenig criou Serial, um podcast que investigava a verdade por trás do assassinato de um adolescente nos EUA. Em 2015, a Netflix lançou Making a Murderer, uma série documental que explorava a possível inocência de Steven Avery, preso durante 18 anos acusado de assédio e tentativa de assassinato. Nessa onda de séries investigativas, ainda tivemos a aclamada American Crime Story: The People Vs. O.J. Simpson.

Séries investigativas que abordam crimes reais estão em alta, todos os exemplos citados geraram repercussão e elogios da crítica especializada. Não demoraria muito até que surgissem paródias e projetos inspirados nessas produções. Scream, por exemplo, flertou com isso ao trazer o The Morgue, um podcast que investigava as mortes da série. Flertou de uma jeito bem mal feito, mas ainda assim flertou.

American Vandal, nova produção original Netflix, é o exemplo mais claro de sátira inspirada no gênero de documentário investigativo. Co-produzida pelo Funny or Die!, a série consegue ir além do apenas “fazer rir”.

American Vandal Season 1

Peter Maldonado (Tyler Alvarez)

Na produção, Dylan Maxwell (Jimmy Tatro) é expulso da escola no ultimo ano do colegial após ser acusado de pichar pintos (sim, pintos) em 27 carros de professores. Dylan, que sempre foi um aluno com problemas de comportamento e conhecido pela sua mania em desenhar os dito cujos (!) na lousa, parecia o suspeito perfeito.

E aí entra Peter Maldonado (Tyler Alvarez), amigo de Dylan, que inicia um documentário para provar a inocência dele, revelando e se envolvendo em muitos podres da escola no processo.

A premissa é absurda? É, mas é divertido ver a série não se levando à sério tratando o caso das pichações como algo sério que rende tomadas atmosféricas em câmera lenta dos corredores vazios da escola, ou fotos em preto e branco dos carros com um pênis desenhado no porta-malas. A piada reside mais na situação que se desenrola do que em gags ou punch lines para forçar o riso.

O que cativa em American Vandal é que ela caminha por caminhos inesperados ao longo da investigação para provar a inocência de Dylan. Passando por subtramas de professores mulherengos, amigos na friendzone e namoros conturbados. Todos os clichês de séries teen estão presentes na série e são trabalhados com competência pelo roteiro. American Vandal não apenas brinca com os clichês, dá à eles uma verossimilhança por conta da roupagem documental. O espectador mais desavisado pode pensar que tudo o que é mostrado na produção aconteceu de verdade.

Sam Ecklund (Griffin Gluck) e Gabi Granger (Camille Hyde)

Sam Ecklund (Griffin Gluck) e Gabi Granger (Camille Hyde)

E é ao brincar com clichês que o universo apresentado na série funciona como alegoria para criticar muito da sociedade. Amercian Vandal é repleta de subtextos a começar pela superexposição na internet dos adolescentes apresentados no documentário. Na série o projeto de Peter torna-se viral e tem muitas das suas revelações tiradas de postagens no Snapchat, Instagram, Facebook, YouTube e Twitter, coisa que acontece muito hoje em dia. Além de questões relacionadas ao bullying, ativismo e o sistema educacional americano, que inibe o comportamento de muitos dos seus alunos por simplesmente ter o poder para tal. Dylan foi acusado de culpado pelas pichações por ser um péssimo aluno e todos o verem como tal, existe nesse fato uma crítica certeira sobre como julgamos muito sem realmente conhecer.

O mais interessante na série é que nenhum dos personagens precisam ser indivíduos complexados e tridimensionais. American Vandal apresenta figuras ordinárias ao longo dos seus oito episódios. Acompanha aquele cara que estuda no colegial, tem seus amigos, sua namorada, seus afetos e desafetos, sonhos e remorsos. Ao apontar a câmera para o comum, a série ganha boas dimensões.

Como jornalista, sempre aprendi/busquei a ideia que boas histórias residem no comum. Sim, no cara que estuda no colegial, tem seus amigos, sua namorada, seus afetos e desafetos, sonhos e remorsos. American Vandal mostra justamente isso, pega o comum e dá importância à ele, mostrando sua gama de dimensões a serem exploradas.

É brilhante ver as dimensões que a série ganha ao longo dos episódios, ao transformar uma história boba de vandalismo em uma crítica ácida. Misturando no processo bons elementos cômicos e uma metalinguagem que funciona sem forçar demais.

American Vandal talvez seja uma das melhores comédias do ano.

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