Crítica | Homem-Aranha: De Volta Ao Lar

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O último filme Marvel que vi no cinema foi Capitão América: Guerra Civil. No podcast que se seguiu à estreia do filme comentei o quão frustrado fiquei com o resultado apresentado. Afinal, um filme que se intitulava “Guerra Civil” não trazia nem 30% da gravidade que o nome pedia. Essa frustração se estendeu para tudo que envolvia Homem-Aranha: De Volta Ao Lar.

Não devemos confundir ceticismo com má vontade. Eu estava com todos os pés atrás possíveis com medo de que a parceria entre SonyMarvel Studios rendesse nada mais que um filme Marvel formulaico que não apresenta nada de novo. Mas isso não quer dizer que não estava de coração aberto para o que o filme dirigido por Jon Watts (A Viatura) teria a apresentar.

E o coração aberto funcionou bem, o Lucas de 2017 conseguiu gostar do Homem-Aranha de Tom Holland do mesmo jeito que minha versão de 2002 gostou da representação do personagem encabeçada por Tobey Maguire. Homem-Aranha: De Volta Ao Lar, tem uma atmosfera bem mais “Sam Raimi” do que fórmula Marvel.

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No filme, Peter Parker (Tom Holland) precisa se readaptar à vida no Queens como estudante e como o Homem-Aranha após os eventos mostrados em Capitão America: Guerra Civil. O que não é muito agradável, Peter sente que está sendo mal aproveitado e podado por um Tony Stark (Robert Downey Jr.) que atua, ao lado de Happy Hogan (Jon Favreau), como mentores do garoto.

Nessa busca por ser mais do que apenas o “amigão da vizinhança“, Peter cruza o caminho de Adrian Toomes (Michael Keaton) e de Jackson Brice (Logan Marshall-Green), os vilões Abutre e  Shocker, respectivamente, que utilizam tecnologia alienígena restante da batalha de Nova Iorque para construir armas e vender para criminosos da cidade.

Convencido de que pode impedir a ameaça do Abutre, Peter busca investigar todo o submundo organizado por Toomes, à contragosto de Tony, que acredita que o garoto ainda não está pronto para esse tipo de desafio.

O bom e velho novo Homem-Aranha

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O que mais era pedido por fãs e pelo público em geral era que o Homem-Aranha conseguisse um filme que adaptasse toda a atmosfera apresentada nos quadrinhos.

Peter não é o adolescente descolado/hispster/skatista de Andrew Garfield nos medianos O Espetacular Homem-Aranha. Muito menos o universitário capenga mostrado por Tobey Maguire na trilogia do Sam Raimi.

Utilizando-se de memes datados, pense no Peter Parker de Tom Holland como o Peter Raiz, o de Garfield o Peter Nutella e o de Maguire o Peter Amendocrem (aquele meio termo que não incomoda, mas que também não faz jus ao personagem).

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar traz o Peter Parker de volta ao chão, o adolescente que lida com cobranças dos professores, cobranças da Tia May (Marissa Tomei), amizades com os “perdedores” da escola, crushes que não o notam (poxa, crush) e a responsabilidade de ser o Homem-Aranha. É aquele Peter Parker que pode ser um herói incrível, mas que não adianta muita coisa ser herói se ficar de recuperação em química.

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Por mais “pé no chão” que esse Peter Parker seja em relação aos quadrinhos, ele ainda guarda algumas adaptações que soam problemáticas à primeira vista.

O roteiro apresenta um Homem-Aranha cheio de si, confiante demais e que bate de frente com o personagem dos quadrinhos, aquele Homem-Aranha que em diversos momentos questiona sua capacidade, missão e propósito.

O fã mais fervoroso pode torcer o nariz para esse Homem-Aranha confiante (eu torci o nariz). Mas é uma boa representação da geração que acredita ter a resposta para tudo, do tipo que interrompe enquanto o adulto fala por acreditar piamente estar certo. Uma adaptação bem vinda para o personagem.

A excelente sequência de ação ambientada em Washington coroa essa sensação de invencibilidade do personagem. Entretanto, o roteiro não trabalha muito o ego inflado do teioso, o que soa jogado ao acaso. Se você forçar mais a análise, a sequência de Washington ajuda essa ideia de um herói invencível, mas o roteiro não expõe com cuidado essa característica, o que diminui a importância da curva de aprendizado do personagem. Nada que prejudique totalmente o filme, mas ainda assim um ponto incômodo.

O fantasma do Tio Ben passado

Homecoming12Ainda no âmbito da atualização do personagem, é interessante a forma como o roteiro opta por contar a origem dos poderes de Peter sem muitas delongas. Toda a explicação da aranha que originou os poderes dele é contada num diálogo entre Peter e Ned (Jacob Batalon), seu melhor amigo e responsável por grande parte dos alívios cômicos do filme.

Por outro lado, a ausência do Tio Ben  é uma atualização conflituosa. É compreensível que matar o personagem pela terceira vez no cinema é repetitivo, mas De Volta Ao Lar peca ao nem ao menos citar diretamente a existência de um Tio Ben.

O Homem-Aranha, nos quadrinhos, sempre teve suas histórias regadas por tragédias e perdas. Tanto a trilogia de Raimi quanto os dois filmes de Marc Webb trabalharam essas perdas tendo como estopim a morte de seus respectivos Tios Ben.

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Ignorar a existência do Tio Ben e minimizar essa característica trágica do Homem-Aranha é abrir mão do que há de mais básico na construção do personagem. Mais uma vez: não é necessário matar um novo Tio Ben, mas é importante que a influência dele seja sentida de forma mais explícita no Peter Parker de De Volta Ao Lar.

A ausência desse fantasma é sentida na relação preguiçosa entre Peter e Tia May (que nem de “tia” é chamada ao longo do filme, “um ultraje“, diria o fã mais ferrenho). Existe muito potencial nessa relação, em grande parte pelas excelentes atuações de Holland e Tomei, mas o roteiro não sabe (ou não quer) explorar isso.

Existem diversos potenciais desperdiçados ao longo de De Volta Ao Lar. O vilão interpretado por Donald Glover é interessante, justamente por trazer uma possível ideia de Miles Morales (o Homem-Aranha do Universo Ultimate da Marvel nos quadrinhos), mas não faz muita coisa no filme.

A Michelle de Zendaya também é outra que não faz nada além de caras e bocas entre uma piada e outra. Fica a impressão que De Volta Ao Lar gastou parte de suas 2h13 com introduções para vindouras continuações. Não faz mal nenhum fazer isso, mas dá pra introduzir personagens para continuações e ainda assim utilizá-los com competência.

Por outro lado, o vilão vivido por Michael Keaton acertou em cheio ao trazer elementos de tensão para o filme. A motivação de Toomes é bem definida e funciona bem comparada às motivações do Homem-Aranha. Ambos trazem diferentes visões de um mesmo tópico: se mostrar superiores ou, no mínimo, equiparar-se ao poderio do Homem de Ferro e os Vingadores.

Talvez o vilão de De Volta Ao Lar ganhasse mais ao ser mais ousado e aproveitar mais o talento que tem em mãos, Michael Keaton é excelente e não fez nada além do básico em seu Abutre por conta de um roteiro que deixa passar chances de fazer melhor para focar no confortável. Ainda assim, as interações entre Keaton e Holland são impecáveis e a rivalidade entre eles funciona bem na medida em que se propõe.

Arriscado, mas nem tanto

Homecoming10Homem-Aranha: De Volta Ao Lar é um filme corajoso e consciente de toda a história que ocorreu nos bastidores entre Sony e Marvel.

Jon Watts acerta ao não se levar à sério demais, mas também não chuta o balde por completo. De Volta Ao Lar apresenta momentos empolgantes mesclados à boas e (um pouco ousadas) liberdades criativas no cânone do personagem. Isso faz bem, mas dá a impressão que o filme jogou no garantido.

Grande parte dessa ideia de que De Volta Ao Lar residiu no que é confortável para o estúdio e público vem na forma de como a divulgação entregou muitas surpresas do filme. Entre os trailers e o filme, a única diferença – além de um plot twist aqui e acolá – é o fato de que o filme tem mais de duas horas.

Vender e entregar um filme tendo a audiência segura de assistir exatamente o que espera é mais fácil do que arriscar surpresas que podem desagradar.

Ainda assim Homem-Aranha: De Volta Ao Lar traz um frescor para a Marvel no cinema. Um filme com um bom roteiro, boas atuações de atores carismáticos e excelentes sequências de ação.

Um ótimo filme mas, convenhamos, com todos esses elementos que citei, Homem-Aranha: De Volta Ao Lar não fez mais que a sua obrigação.

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Homem-Aranha: De Volta Ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017)

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017)
8,2

Roteiro

8/10

    Atuação

    9/10

      Fotografia

      9/10

        Trilha Sonora

        7/10

          Edição

          8/10

            Pros

            • Excelentes atuações
            • Bons elementos de tensão e comédia
            • Sequências de ação bem conduzidas
            • Boas atualizações do personagem

            Cons

            • Personagens mal aproveitados
            • Minimiza a figura do Tio Ben, parte primordial do Homem-Aranha
            • Péssima divulgação do filme prejudica experiência final

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