Crítica | Mulher-Maravilha

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Quando as primeiras críticas de Mulher-Maravilha começaram a sair e apontavam a qualidade do filme em comparação à tudo que a DC Comics havia apresentado no cinema desde então. Lembro de ter brincado nas redes sociais que os exemplares para comparação não serviam de parâmetro para isso.

Realmente, qualquer coisa depois de Esquadrão Suicida não precisaria se esforçar muito para ser superior. O ponto é que o universo DC nos cinemas é repleto de excelentes propostas, mas péssimas execuções. Mulher-Maravilha é o primeiro caso de filme acerta em cheio na proposta e execução.

Habitantes de Temiscira

Robin Wright (ao centro) e as amazonas

Robin Wright (ao centro) e as amazonas

Dirigido por Patty Jenkins (Monster: Desejo Assassino), o filme acompanha Diana (Gal Gadot), princesa de Temiscira, lar das Amazonas. Treinada para ser a guerreira que dará fim a guerra eterna entre Ares, o Deus da Guerra, e os humanos.

Quando Steve Trevor (Chris Pine), um espião da Primeira Grande Guerra, chega acidentalmente à Temiscira, Diana descobre sobre a guerra que está devastando o mundo e acredita que Ares está por trás disso. Ela então parte para o mundo dos homens junto com Steve para tentar deter Ares, na figura do General Ludendorff (Danny Huston), e sua associada, a Dra.  Veneno (Elena Anaya), e dar um fim ao conflito.

Apesar de já termos tido um vislumbre da Mulher-Maravilha em Batman v Superman: A Origem da Justiça, essa é a primeira vez em que realmente conhecemos quem Diana é. Toda a mitologia por trás da personagem é apresentada no filme, numa tentativa (talvez frustrada) em ser didático sem soar chato.

Chris Pine e Gal Gadot

Chris Pine e Gal Gadot

Apresentar um universo místico envolvendo deuses e magia (algo porcamente explorado pela Magia de Esquadrão Suicida) dentro de cinco minutos de explicação no filme é uma tarefa difícil, e acredito que Mulher-Maravilha conseguiu se sair bem na tentativa.

Quando sua mãe, Hipólita (Connie Nielsen), explica para uma jovem Diana o surgimento das Amazonas e todo o conflito envolvendo Ares, fica um misto de história real e lenda que cativa. Temiscira, na forma como é apresentada pela história de Hipólita e pelo decorrer do filme, tem um “quê” de irreal, tal como a Asgard de Thor (2011), mas mescla muito bem ao se mostrar um local palpável, algo que o filme da Marvel não conseguiu.

Mulher-Maravilha consegue encontrar um bom equilíbrio entre misticismo e realidade. Não só durante o tempo gasto apresentando o lar de Diana, mas ao longo do filme inteiro. O filme apresenta em seu roteiro muitas dualidades.

Uma dualidade que não é gasta apenas na magia vs. ciência, mas também nas diferentes visões que Diana e Steve tem da guerra. Um tenta convencer o outro da visão que tem do mundo à sua volta e a curva de aprendizado dos personagens é conduzida com competência.

A Guerra e o que ela faz com as pessoas

Saïd Taghmaoui, Chris Pine, Gal Gadot, Eugene Brave Rock e Ewen Bremner

Saïd Taghmaoui, Chris Pine, Gal Gadot, Eugene Brave Rock e Ewen Bremner

A transformação de seus personagens principais é reflexo do bom trabalho de Gal Gadot e Chris Pine. As interações entre Diana e Steve demoram a engatar e soam forçadas em diversos momentos, fruto de um roteiro que gasta tempo demais com o romance dos dois. Por sorte, o carisma de Gadot e Pine minimiza esses excessos.

Apesar de excessivo, é justificável o romance dos personagens. Diana repete em diversos momentos ao longo do filme que só o amor vence a guerra, e ela vivencia o amor sob diferentes estágios. Seja na figura de Steve, a amizade que firma com os amigos dele, a gratidão de um grupo de refugiados salvos por ela e a relação de respeito e afeto com sua mãe e sua tia (Robin Wright).

É notável o trabalho do elenco de apoio ao longo do filme, personagens que orbitam ao redor de Diana e contribuem com o crescimento dela. A guerreira Antiope, personagem de Wright, é um poderoso contraponto em relação à sabedoria de Hipólita, mas ambas são exemplos de honra para Diana, e isso é refletido no comportamento e desenvolvimento da personagem.

Uma pena que a personagem de Wright não teve mais tempo de tela, serviu o seu propósito com maestria e uma excelente atuação, mas Robin Wright nunca é demais.

Chris Pine

Chris Pine

Por outro lado, toda interação entre Chefe (Eugene Brave Rock) e Diana funcionava muito bem, uma vez que ele compreendia parte da magia que conduz a vida da amazona. Ele, ao lado de Charlie (Ewen Bremner) e Etta (Lucy Davis), são personagens bons, porém mal aproveitados.

Entende-se que gastar tempo de tela com esses personagens desvia o foco do filme, mas dentre suas longas 2h21min, não faz mal nenhum gastar pelo menos uns dez usando mais eles.

O mesmo vale para o General Ludendorff, um vilão que é mal só porque ele pode (matar o capanga avulso que fez burrada não te faz ser malvado, te faz ser clichê), falta uma motivação mais trabalhada para um personagem com tanta importância na trama. A motivação dos vilões definitivamente se mostra o calcanhar de Aquiles dos filmes de heróis.

Apesar de um vilão problemático, foi inteligente a forma como o roteiro usou a Dra. Veneno para equiparar Ludendorff ao poderio da Mulher-Maravilha. Causando um bom senso de desafio à personagem, que se coloca em situações que ajudam o filme a caminhar bem entre a ação, comédia e suspense.

Mulher-Maravilha tem um elemento de tensão bem dosado, os desafios pelos quais os personagens passam funcionam numa crescente bem trabalhada. Isso culmina num clímax grandioso que funciona bem ao que o filme se propõe, mas repete erros que o filme comete desde sua primeira sequência de ação.

No campo de batalha

Gal Gadot

Gal Gadot

Os filmes da DC Comics sofrem de um problema tremendo na sua montagem. As constantes intervenções do estúdio resultam em filmes picotados e mal editados como Esquadrão Suicida. Não é o caso de Mulher-Maravilha, não totalmente.

A montagem do filme é trabalhada com cuidado e não prejudica a compreensão do roteiro, algo que Batman v Superman não conseguiu, mas as sequências de ação apresentam uma edição confusa. Cortes excessivos prejudicam o senso de espacialidade das lutas, você demora a compreender onde cada personagem está disposto na ação.

O uso da câmera lenta funciona bem no começo do filme e se mostra um recurso estético escolhido a dedo para ser usado do começo ao fim, isso é bom para manter a uniformidade. Mas é inserido em momentos questionáveis a partir do meio da projeção.

Mesmo questionável, a câmera lenta funciona bem com a excelente fotografia e paleta de cores, o que dialoga com toda a atmosfera mística do filme. Mulher-Maravilha tem momentos que trazem uma ligação inteligente com a visão que temos dos deuses gregos, como se fossem seres imponentes. Diana é representada como uma deusa a ser glorificada, principalmente quando ela compreende a natureza dos seus poderes e existência.

Gal Gadot

Gal Gadot

É satisfatório ver o quanto Mulher-Maravilha conseguiu apresentar ao público sua personagem. Um filme que reafirma a visão ousada da DC no cinema em trazer narrativas mais sisudas, mas que trabalha bem experimentações sem necessariamente ficar preso à formulas.

Mulher-Maravilha repete acertos estéticos dos outros filmes da DC e corrige os tropeços de roteiro que as empreitadas anteriores sofreram. Ainda está longe de ser um filme perfeito, mas como disse no começo: não precisa se esforçar muito para ser melhor. O importante agora é continuar se esforçando para sempre ser melhor.

Dá pra ficar muito otimista com a DC no cinema depois de Mulher-Maravilha, afinal, a personagem sempre foi símbolo de esperança de que dias melhores virão.

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Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017)

Mulher-Maravilha (Wonder Woman, 2017)
8,2

Roteiro

9/10

    Atuação

    8/10

      Fotografia

      10/10

        Trilha Sonora

        8/10

          Edição

          6/10

            Pros

            • Bom desenvolvimento da personagem principal
            • Uso inteligente da tensão e comédia mesclada à ação
            • Boa apresentação da mitologia e de Temiscira
            • Excelente fotografia

            Cons

            • Uso questionável da câmera lenta em diversos momentos
            • Sequências de ação mal editadas
            • Personagens mal aproveitados

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