Crítica | O Matador

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O Brasil é um país rico culturalmente, com cada cultura sendo portadora de histórias com um potencial incrível para ser transpostas para cinema e televisão. O Matador, primeiro filme original Netflix produzido no Brasil, explora esses potenciais com relativo sucesso.

No filme, Cabeleira (Diogo Morgado) foi criado pelo cangaceiro Sete Orelhas (Deto Montenegro) no sertão nordestino em um período que a lei não existia e a vida humana valia um punhado de pedras preciosas. Quando Sete Orelhas desaparece, Cabeleira parte em busca dele e é contratado pelo poderoso Monsieur Blanchard (Etienne Chicot) para ser um matador profissional.

A frieza de Cabeleira como matador é posta em cheque quando ele começa a se relacionar com os habitantes da cidade. O filme se propõe a trabalhar esse conflito, na figura de filhos perdidos, amizades, vícios e vingança. Todo o subtexto de Cabeleira buscando compreender a natureza dos seus relacionamentos, e o excelente trabalho na construção dos demais personagens, ficam soterradas por escolhas questionáveis na hora de conduzir a narrativa.

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O roteiro de Marcelo Galvão (que também dirige o filme) é marcado por motivações mal trabalhadas. O vilão composto por Etienne Chicot mais parece o divertido Harold Zidler de Moulin Rouge!: Amor em Vermelho do que alguém a ser realmente temido. Ou o personagem de Marat Descartes, Quatro Olhos, que ganha flashbacks e um peculiar TOC por limpeza, garantindo um personagem interessante que pouco faz ou acrescenta à trama se olharmos o conjunto da obra.

O Matador é apresenta em diversos momentos mortes e reviravoltas para fazer o roteiro parecer inteligente quando na verdade pouco se sente o peso de tais reviravoltas e mortes. Alguns personagens tem um destino terrível apenas porque o roteiro quer que tenham esse destino, no fim pouco importa. Nem mesmo a presença do Tenente Sobral (Paulo Gorgulho), que tem um peso grande na trama ao fazer Cabeleira questionar suas escolhas, recebe a importância que merecia. Sua presença acaba se resumindo a um apoio para fazer o roteiro andar, sendo descartado de modo preguiçoso quando não é mais necessário.

A escolha de contar a história de Cabeleira sob o ponto de vista de um narrador busca dar uma liga ao excesso de variáveis presentes no filme, dá certo no começo, mas o retorno a todo momento ao apoio do narrador, para contar e explicar pontos da história, vide o excesso de variáveis, soa didático demais. O Matador ganharia muito em estabelecê-lo como figura presente no inicio e no fim do filme e deixar que o roteiro, trabalhando melhor seus diálogos e fotografia, contasse os pormenores da história por si só.

O excesso do narrador faz o espectador pensar demais na história e sacar desde o inicio muitas das reviravoltas do filme. Não que antever as reviravoltas seja algo prejudicial, como disse antes, reviravoltas não tem muita função na trama.

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Do ponto de vista técnico, a produção merece aplausos. A excelente fotografia coloca o espectador no sertão nordestino e na dualidade existente entre beleza e brutalidade que só essa região do país consegue apresentar. A trilha sonora também é bem trabalhada e inspirada, é notável que foi feito um bom apanhado da cultura musical do sertão na composição e no uso dela ao longo do filme.

É claro que O Matador ganha seus pontos e descontos por ser a primeira vez que vemos uma produção brasileira original Netflix. Se não tivesse o nome da gigante no topo do cartaz, ainda seria um bom filme nacional que explora uma parte riquíssima da cultura brasileira com uma proposta interessante e execuções questionáveis. O saldo é positivo independente do contexto, vale a pena dar uma chance ao filme.

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O Matador (2017)

O Matador (2017)
6,6

Roteiro

4/10

    Atuação

    5/10

      Fotografia

      9/10

        Trilha Sonora

        8/10

          Edição

          7/10

            Pros

            • Excelente fotografia e trilha sonora
            • Boa composição de personagens

            Cons

            • Motivações mal trabalhadas
            • Desenvolvimento previsível

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