Crítica | O Predador

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O Predador divide com Alien e Exterminador do Futuro um espaço capcioso no cinema atual. São franquias que fizeram sucesso nos anos 80 e 90 e que clamam por boas atualizações. Excluindo o desastre que foi Exterminador do Futuro (porque não tem como defender o filme de 2015), Alien e Predador tiveram nas suas respectivas atualizações resultados que dividiram opiniões.

Há quem goste muito de Predadores, filme de 2010 estrelado por Adrien Brody, e eu sou simpático com relação à essas pessoas, principalmente porque o filme oferece coisas novas se comparado ao genérico O Predador, dirigido por Shane Black (Dois Caras Legais) e que estreou essa semana no país.

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“That Escalately Quickly…”

Quinn McKenna (Boyd Holbrook) é um sniper do exercito americano que esbarra num predador durante uma missão ultrassecreta. Como de praxe do exército americano (que sempre é megaevil), McKenna é preso por Will Traeger (Sterling K. Brown), que comanda uma operação especial responsável por estudar a presença dos predadores na Terra e convida a cientista (que estuda o quê? Não sei, o filme não deixa claro) Casey Bracket (Olivia Munn) para estudar de perto o espécime capturado durante a luta entre McKenna e o bichão.

Enquanto isso, o filho de McKenna, Rory (Jacob Tremblay), encontra uma caixa do pai com artefatos pertencentes ao predador capturado. Como de praxe de crianças em filmes (que são sempre fofinhas e metida a espertas), Rory ativa um dispositivo que acorda o predador capturado e que também serve de farol para um segundo predador (maior e melhor, vou chamar de predadorzão para ajudar a diferenciar). Esse predadorzão está perseguindo o outro predador porque esse fugiu com uma carga valiosa e que poderia virar o jogo numa iminente guerra entre predadores e humanos.

Ficou confuso? Eu também! E olha que omiti diversos pontos do filme. O roteiro de Black e Fred Dekker (RoboCop 3) é inchado sem necessidade. Em O Predador a temática de evolução das espécies promete algo bacana, mas é diluída numa enxurrada de variáveis.

Tem-se o plot de McKenna que não se dá bem com a esposa (Yvonne Strahovski desperdiçada) e a relação que tem com o filho autista (cuja temática não oferece nenhum conflito entre os dois, apesar de ter potencial). Aí tem a jornada pessoal de Casey, que muda em segundos de cientista clássica de filme sci-fi para heroína de ação badass que curte saltar em coisas em movimento, de ônibus a predadores (não que uma cientista não possa fazer isso, claro, mas o roteiro muda o foco da personagem repentinamente só para fazer a história funcionar).

Olivia Munn, de cientista a heroína intocável num piscar de olhos, e Jacob Tremblay em O Predador

Olivia Munn, de cientista a heroína intocável num piscar de olhos, e Jacob Tremblay em O Predador

Tem também Traeger que quer investigar mais dos predadores, mas isso faz dele um vilão porque o roteiro quer assim (e porque Sterling K. Brown precisa de um vilão na conta). Não nos esqueçamos de toda a exploração do esquadrão de McKenna, um dos pontos altos do filme porque tem bons atores, mas que são sumariamente esquecidos para privilegiar um protagonista banal.

Esse inchaço rende um filme inconstante e que degringola para uma aventura sci-fi genérica com sangue e mutilações. Toda primeira meia hora de O Predador é promissora, admito. E é interessante ver o predador capturado pelo exército com uma empolgante (e esperada) fuga, mas logo que o predadorzão é introduzido a empolgação dá lugar à um marasmo que não ajuda o filme ao criar problemas maiores que personagens unidos pelo acaso deveriam ser capazes de resolver.

O resultado é um clímax enfadonho e bobo, apresentando uma sequência de ação que poderia ser vista em filmes da Marvel.

Não julgo um demérito O Predador ser mais voltado para a ação do que para o terror, é algo que sempre esteve no core da franquia. O que me incomoda é o filme querer equilibrar o poder dos humanos com o de um alienígena que é criado, essencialmente, para ser o melhor no que faz. No fim você não teme pelo destino dos personagens porque não dá pra se importar com eles, com dois segundos de tela você já entende quem morre e quem vive até o fim do filme.

E eu gosto de pensar que o roteiro inchado seria mais bem aproveitado se, bem, soubessem editar o material filmado.

Boyd Holbrook, Trevante Rhodes, Keegan-Michael Key, Thomas Jane e Augusto Aguilera em cena de O Predador

Boyd Holbrook, Trevante Rhodes, Keegan-Michael Key, Thomas Jane e Augusto Aguilera em cena de O Predador

Editado com os cotovelos

O Predador foi um filme que passou por diversos problemas desde o começo de sua produção. O roteiro vazou, o estúdio interferiu no tom do filme, adiaram o lançamento, demoraram a lançar material de divulgação, Shane Black contratou um amigo acusado de assediar uma criança e não contou pra ninguém até Olivia Munn descobrir o caso e exigir que a cena em que ele aparece fosse retirada do filme. Se existe inferno astral, O Predador deitou e rolou nele.

Todos esses problemas resultaram num filme que parece ter sido editado com os cotovelos (ou com o editor batendo a testa no teclado com o Adobe Premiere aberto, escolha sua comparação favorita). Não existe senso de espacialidade, não existe sutileza, não se contextualiza coisas simples que um roteiro deveria explicar.

Personagens somem e desaparecem com frequência e sem motivo aparente (qual é a do cachorro amigo do personagem do Jacob Tremblay?), vilões percorrem distâncias enormes em minutos, objetos de cena aparecem e somem sem maiores explicações (numa tomada o personagem de Sterling K. Brown está sem nada no rosto, na tomada seguinte ele ostenta óculos escuros, COMO ASSIM?!).

A edição não tem ritmo, são cortes secos que deixam lacunas enormes entre uma cena e outra (de onde surgiu o trailer usado por McKenna e seus amigos?), não contextualizam cenários onde se passam grandes sequências de ação.

Não apenas na questão de cenário, elementos da trama não são explicados da forma como deveriam por conta da edição caótica. Personagens tiram explicações sobre as motivações dos predadores do nada apenas porque o roteiro precisava delas.

O Predador é um filme que faz você se sentir burro, mas não porque o filme é inteligente, e sim porque nada é contado com cuidado. Você fica perdido no filme sendo jogado de um lado para o outro numa montanha e plots, subplots, reviravoltas e personagens que poderiam ter dado muito certo.

Olivia Munn e Sterling K. Brown em O Predador, bons atores num filme que não soube usar o potencial em mãos

Olivia Munn e Sterling K. Brown em O Predador, bons atores num filme que não soube usar o potencial em mãos

Potenciais desperdiçados

Se você analisar as propostas do filme e seus personagens individualmente, dá pra tirar boas coisas dele. O que tornou O Predador uma experiência desastrosa é sua execução medíocre e a maçaroca de plots confusos e mal trabalhados.

Existe potencial no filme, e isso melhora a percepção que tenho com relação a ele. A história tinha potencial para ser boa e a ação idem, só que não entrega.

Por sorte, o elenco faz um bom trabalho com atores carismáticos que fazem muito com pouco. Talvez a única coisa que o salva do fracasso completo, Shane Black soube trabalhar a relação dos personagens quando havia tempo para tal.

Entretanto, soa contraditório querer elogiar personagens e atores sendo que o roteiro pouco fez para cativar esses mesmos personagens (no fim a gente se importa mais com o ator em si do que com o personagem). É isso que O Predador fez: ser um filme tão incoerente que até as partes boas dele são revestidas de ruindade.

Assistiu O Predador e tem esperanças para uma continuação do recente filme? Deixe seus comentários!


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O Predador (The Predator, 2018)

O Predador (The Predator, 2018)
4

Roteiro

4/10

    Atuação

    6/10

      Edição

      2/10

        Trilha Sonora

        4/10

          Fotografia

          4/10

            Pros

            • Boas atuações de um elenco carismático
            • Design do predador e espaçonaves

            Cons

            • Edição caótica e repleta de furos de continuidade
            • Roteiro inchado de variáveis e com incoerências
            • Ação genérica
            • Trilha sonora esquecível

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