Crítica | Okja

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Uma pergunta que repeti em diversos momentos dos últimos Cineclube Junta 7 foi “se retirarmos todo o contexto do filme, toda a referência, por mais forçada que seja, ainda sobra um bom filme?”. Okja, o novo filme original Netflix, me fez repetir essa pergunta.

É lógico que um dos elementos que fazem um filme funcionar é a capacidade que ele tem de trabalhar a história como uma alegoria para criticar a sociedade atual e Okja é bem sucedido nisso. Sim, todas as críticas que qualificam o filme como “uma crítica ao apetite voraz do capitalismo” estão completamente certas, mas fica a duvida se o filme consegue funcionar no seu espectro mais básico.

Dirigido por Bong Joon Ho (Expresso do Amanhã), o filme gira em torno da gigante dos frigoríficos Mirando e a descoberta dos super-porcos em 2007. Idealizado pela CEO da Mirando, Lucy Mirando (Tilda Swinton), filhotes de super-porcos foram espalhados pelo mundo para que sejam criados nos 10 anos seguintes por fazendeiros locais como parte de um concurso para eleger o melhor animal.

An Seo Hyun

An Seo Hyun

E não demora até conhecermos Okja, uma super-porca que vive nas montanhas da Coréia do Sul com Mija (An Seo Hyun) e seu avô. A vida pacata dos três é chacoalhada quando Okja é tirada de Mija pelos executivos da Mirando e levada aos Estados Unidos para participar do concurso e, posteriormente, fazer parte da lista de alimentos fabricados pela empresa.

Mija parte atrás de Okja e cruza não apenas o caminho da Mirando, mas também de um grupo de ativistas dos direitos dos animais comandados por Jay (Paul Dano).

Por ter a sua retórica bem definida ao criticar a tortura de animais para exploração comercial, o filme ganha ao poder se dedicar com calma à todos os assuntos que orbitam ao redor disso. E isso funciona bem, até o momento em que para de funcionar.

Toda a primeira meia hora de filme é gasta mostrando como Okja e Mija passam seus dias, mostrando a relação de afeto entre as duas e como Okja é um animal fascinante. Existe algo de fascinante na conexão que Mija tem com Okja e a talentosa An Seo Hyun consegue explorar isso sem precisar recorrer à diálogos expositivos.

Lily Collins (ao fundo) e Paul Dano

Lily Collins (ao fundo) e Paul Dano

Esse fascínio é ampliado quando o filme já demonstra desde seus primeiros minutos o conflito que se dará ao longo da narrativa: Mija vai bater de frente com a Mirando por conta de Okja. E quando esse confronto começa a tomar forma, o filme e Mija são engolidos por Jay e os ativistas.

Mija é jogada de canto e vira um mero peão nas intenções obscuras de Jay e de Lucy Mirando. O que antes se tratava de uma história de amizade entre uma menina e uma animal contra corporações poderosas vira uma história de chantagem empresarial com cunho ambiental. Dois terços do filme foram compostos por algo completamente destoante do começo.

Essa falta de foco é minimizada pelo bom trabalho do roteiro em construir os personagens de Dano e Swinton. O primeiro confere à Jay uma dualidade entre boas intenções e extremismo que é bacana de acompanhar. A Lucy de Tilda Swinton é mais um bom trabalho da atriz, com uma personagem que pende para o caricato em diversos momentos, mas sem forçar demais.

Tilda Swinton

Tilda Swinton

Todos os núcleos são bem desenvolvidos e interessantes no que se propõem a ser. Sobra até espaço para os personagens de Jake Gyllenhaal e Giancarlo Esposito mostrarem a que veio. Mas por mais interessantes que tudo isso seja, ainda paira sobre o filme a impressão que estão desviando demais o foco de Mija e Okja. Medo de sustentar um filme inteiro numa protagonista coreana que não fala inglês? Talvez, mas Mija é uma personagem carismática demais para ser negligenciada por um protagonismo americano.

Okja é um filme desequilibrado na hora de desenvolver sua narrativa, o que salva esse desequilíbrio é o subtexto bem trabalhado e o roteiro afiado. No fim, um filme divertido, otimista e que faz refletir, pode ter todos os problemas do mundo, mas não tem como não gostar da relação entre Okja e Mija.

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Este post só foi possível com a ajuda de Marilene Melo e muitas outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui.

Okja (Okja, 2017)

Okja (Okja, 2017)
7,4

Roteiro

6/10

    Atuação

    8/10

      Fotografia

      9/10

        Trilha Sonora

        8/10

          Edição

          6/10

            Pros

            • Excelente fotografia
            • Boa crítica à sociedade do consumo
            • Atuações competentes

            Cons

            • Desequilíbrio entre desenvolvimento de núcleos
            • Edição mal trabalhada

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