Crítica | A Torre Negra

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Adaptações são coisas complicadas, ainda mais quando se brinca com o objeto de devoção de milhares de pessoas. Dificilmente você consegue agradar a todos, independente se você pega ou não caminhos mais fáceis. A Torre Negra, adaptação da saga literária de Stephen King, sofreu isso na pele.

Vale lembrar que A Torre Negra sofreu bastante até chegar aos cinemas, é um projeto que levou anos para sair do papel devido a complexidade que a saga de King exigia. Para se ter um exemplo, o sexto livro da saga, Canção de Susannah, se passa em grande parte na cabeça de um dos personagens, e muitos outros momentos ao longo dos sete livros emulam elementos de Harry Potter, O Senhor dos Anéis e Star Wars. Como adaptar isso para o cinema sem perder o público desavisado que não compreende o contexto do material original?

Na minha cabeça de fã, uma adaptação fiel seria a melhor pedida, daquelas ipsis litteris mesmo, sem tirar e nem por nenhuma vírgula. Já estava preparado para lançar a campanha pela escolha de Joel Edgerton, Tom Hiddleston, Lupita Nyong’o e Darren Criss nos papeis de Roland, Homem de Preto, Susannah e Eddie, respectivamente.

Mas eis uma verdade óbvia para você, caro fã: nenhuma adaptação será da forma que você quer, acostume-se a isso. Meu elenco dos sonhos não aconteceu e a adaptação de A Torre Negra comandada por Nikolaj Arcel (O Amante da Rainha) tinha mais roupagem de continuação direta dos livros do que de adaptação.

TheDarkTower02

A verdade é que o filme não conseguiu nem ser adaptação, que dirá continuação. E não, isso não é birra de fã, não. Não é preciso muito conhecimento prévio em Stephen King para saber que A Torre Negra é um negócio esquisito que foi feito nas coxas.

Longos dias… (mas não tão longos assim)

O filme acompanha Jake Chambers (Tom Taylor), um garoto que tem sonhos com uma torre que está sendo ameaçada pelo Homem de Preto (Matthew McConaughey) e que tem como defensor obstinado Roland Deschain (Idris Elba), o último dos Pistoleiros, grupo que jurou proteger a torre. Ela que é o monumento que sustenta todos os mundos, o Mundo Médio de Roland e do Homem de Preto, e o Mundo Chave que a gente conhece como o nosso.

E é dessa maneira, comprimindo sete livros em um filme de 1h35, que A Torre Negra se perde de vez antes mesmo de tentar convencer.

Sim, ele ganha pontos ao focar toda a primeira meia hora em Jake e na busca dele pelos significados dos seus sonhos, mas foi uma meia hora corrida, atrapalhada e que não dá tempo de respirar. O roteiro ganharia muito em conceituar com calma todo o universo do Mundo Médio sob a dúvida se isso é ou não alucinação de Jake e oferecer uma comprovação posterior de que os sonhos do garoto eram verdade, por exemplo.

Já que Jake tem a função de ser o fio condutor da trama e aquele que ajuda a traduzir os conceitos do universo de King ao público, que fizessem isso com competência. As regras do universo apresentado em A Torre Negra soam confusas até para quem leu os livros porque são mal apresentadas. Pior, gasta-se mais tempo explicando das piores maneiras possíveis o que é a Torre, os Taheens, o dom do toque, os Pistoleiros, Devar Toi, Mundo Médio, Mundo Chave, o Homem de Preto e mais 4500 coisas do que contando a história que o filme propôs contar.

Essa péssima condução da narrativa é culpa de uma duração ridícula, A Torre Negra teria um potencial de melhora se tivesse 30 minutos a mais.

Walter (Matthew McConaughey) and Roland (Idris Elba) in Columbia Pictures THE DARK TOWER.

Matthew McConaughey e Idris Elba

…belas noites (na verdade, nem tão belas assim)

A Torre Negra agrada os fãs com boas sacadas, claro. A logomarca da Tet Corporation aparecendo no começo do filme foi divertida. A aparição do Treze Preto e dos outros Globos do Mago (introduzidos em Mago e Vidro, quarto livro da saga) aquecem o coração de qualquer leitor e faz acreditar que tudo pode melhorar.

Entretanto, muitos easter eggs soam gratuitos. Sim, mostrar uma fotografia do Overlook Hotel (de O Iluminado), um Plymotuh Fury vermelho e branco (de Chrsitine) e um livro de Paul Sheldon (de Misery – Louca Obsessão) é um deleite para os fãs que compreendem que essas referências são comprovações de que as obras de King fazem parte de um mesmo universo. Mas num filme desastroso em apresentar seus conceitos, isso não passou de um easter egg bobo.

Nem tudo é ruim, calma. A Torre Negra apresenta momentos inspirados, principalmente na sequência em que Roland invade o Dixie Pig, base dos Taheens em Nova Iorque. O momento marca uma boa transposição do Roland dos livros para o cinema. Elba, por sinal, consegue entregar um Roland competente e que condiz com os livros, principalmente nas parcas interações com Jake.

O menino, por sinal, também é um bom caso de adaptação boa para o cinema. Tom Taylor compõe um Jake que não é totalmente fiel aos livros, mas que apresenta as mesmas essências. O que é bom para o filme, a despeito de todos os seus problemas de roteiro.

Idris Elba e Tom Taylor

Idris Elba e Tom Taylor

Walter, ou Homem de Preto, é um vilão que soa caricato em muitos momentos. Em parte por McConaughey ser canastrão ao extremo, mas também por transformarem um vilão mínimo dos livros (tem uma grande importância, mas no macro é só mais um pau mandado) em um adversário físico e, aparentemente, definitivo para Roland.

O Homem de Preto é encarado nos livros como um adversário mais estratégico para Roland, o confronto físico existe, claro, mas é mínimo, justamente por ele ser só a ponta do iceberg. O filme explora esse aspecto estrategista do Homem de Preto com certa competência, mas no seu clímax descamba para uma luta genérica.

Quando o filme esquece a face de seu pai

A Torre Negra é, no conjunto da obra, um filme genérico e esquecível. Quando escrevi sobre a série de livros comentei que King abre mão de convenções narrativas em prol de contar sua história da melhor maneira possível. O filme não segue esse caminho.

A produção, na verdade, joga fora toda a inventividade dos livros para abraçar o clichê da pior maneira possível. Tornando-o inconstante, tem bons momentos no seu miolo, mas com um começo atropelado e um desfecho preguiçoso. Além disso, o filme sofre com uma péssima fotografia e edição das sequências de ação.

Existem tantos problemas técnicos e de roteiro em A Torre Negra que fica a pergunta se realmente é culpa de interferência do estúdio na produção do filme. A impressão que se tem é que a interferência foi pra deixar o filme menos pior, o que pode (ou não) tê-lo piorado no processo.

Eis um ponto do qual o filme pode se orgulhar: ele pode incentivar o público a ler os livros. Esses são bons. Sabe aquela história de que o livro sempre é melhor que o filme? Então, nesse caso é verdade.

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A Torre Negra (The Dark Tower, 2017)

A Torre Negra (The Dark Tower, 2017)
4,8

Roteiro

3/10

    Atuação

    8/10

      Fotografia

      4/10

        Trilha Sonora

        5/10

          Edição

          4/10

            Pros

            • Boas atuações
            • Transposição bem executada dos personagens dos livros para o cinema

            Cons

            • Péssima condução da trama
            • Conceitos porcamente apresentados
            • Fotografia e edição escura demais e confusa
            • Início apressado e mal trabalhado
            • Clímax genérico e preguiçoso

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