O fim agridoce de Game of Thrones

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*TEXTO COM SPOILERS DA ÚLTIMA TEMPORADA DA SÉRIE*

Quando escrevi sobre a sétima temporada de Game of Thrones em 2017, critiquei bastante a série por apresentar soluções óbvias que mais se preocupavam em atender as expectativas da turba de fãs do que em seguir qualquer senso de coerência com seus personagens.

A oitava temporada que marcou o fim da série também quis atender nossas expectativas, porém com um resultado manco, tedioso e com mais erros que acertos.

Claro, Game of Thrones merece todas as palmas do mundo por ser uma série que conseguiu fazer o mundo parar por seis semanas seguidas, nem que fosse para falar mal. Em tempos de peak content, é um marco para qualquer um conseguir prender tanto assim a atenção do público e eu duvido que a HBO conseguirá repetir esse feito tão cedo, seja com os spin-offs de GoT ou com Westworld.

A grande dúvida ao redor do fim da série é saber se seu encerramento apático pode ou não ofuscar os primeiros bons seis anos que Game of Thrones teve. Talvez, a série apresentou nos seis episódios finais diversos erros estruturais e não conseguiu atender às expectativas criadas previamente.

Basicamente, Game of Thrones criou, ao longo das suas oito temporadas, problemas complexos demais que fica até impossível encontrar soluções que funcionassem do começo ao fim.

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A noite eterna que a gente não viu

Tenho muitas ressalvas com a maneira blocada com que GoT estruturou sua temporada final. Em seis episódios, tivemos dois dedicados à preparação e batalha contra o Rei da Noite (Vladimir Furdik), dois focados na preparação e batalha entre Daenerys (Emilia Clarke) e Cersei (Lena Headey). Com o episódio inicial sendo um gigantesco “previously on…” e o final dedicando pouco em trabalhar o reinado de terror de Daenerys.

Olhando por um ângulo, é uma escolha interessante blocar a temporada. Fragmentar todas as pendências da série em pequenos arcos com começos, meios e fins bem delineados ajudou a dar o senso de encerramento que se espera de uma temporada final.

Por outro lado, jogou diversos personagens em um limbo narrativo em muitos momentos dos seis episódios. Quando a série optou por encerrar a história do Rei da Noite com Arya (Maisie Williams) dando o golpe final, ela praticamente limou mais da metade das motivações de Jon Snow (Kit Harrington) e jogou para a personagem de Williams uma carga narrativa que ela nunca havia pedido para ter.

Jon não pode matar o Rei da Noite porque a irmã chegou antes. Ele também não quis assumir o Trono de Ferro, por mais que seja seu por direito. Qual a motivação do personagem, então? Jon passou cinco episódios andando de um lado para o outro tentando se inserir na história.

E ele não foi o único, a própria Arya Stark ficou perdida no meio de tramas que pouco tinham a ver com sua jornada pessoal de riscar o nome de todas as pessoas na lista.

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A impressão que se tinha era que o roteiro de David Benioff e D.B. Weiss jogou um punhado de nomes para o alto e saiu pegando aleatoriamente para escolher quem morreria, quem mataria quem (ou o quê) e quem perderia a virgindade no episódio da semana. Quem não foi o escolhido que ficasse restrito a ser apenas figurante de luxo. As reuniões no salão de Winterfell pareciam feiras de samambaia com o tanto de personagem plantado em cena sem função alguma.

A temporada final se beneficiaria muito mais se tivessem fundido muitas de suas tramas num mesmo episódio. Por que não mesclar a luta contra o Rei da Noite junto da guerra LannisterTargaryen? Além de concentrar a ação e tensão em episódios que seriam mais dinâmicos por conta disso, poderiam traçar paralelos entre as diferentes guerras chegando em seu clímax ao mesmo tempo.

O modo blocado, apesar de questionável, funcionou ao entregar “A Knight of the Seven Kingdoms”, o segundo episódio da temporada e um dos melhores da série no geral. Toda a preparação para a luta contra o Rei da Noite serviu para estabelecer um elemento de tensão que foi bem recompensado em muitos momentos do episódio seguinte.

Ainda é um episódio que sofre por alguns diálogos horrorosos na hora de representar a paixão entre Dany e Jon, ou a birra da Sansa (Sophie Turner) com a Mãe dos Dragões, mas foi o mais redondo no quesito construção de personagens em uma temporada complicada.

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Os sinos da redenção

Certamente, Cersei foi quem mais sofreu com o limbo em que se encontravam os personagens nessa temporada. Uma personagem cuja jornada ao longo dos oito anos soube priorizar o talento de Headey e um desenvolvimento humano para sua personagem. Cersei, ao longo dos seis últimos episódios, só fez tomar vinho, ser mandona com Qyburn (Anton Lesser) e se atracar com Euron Greyjoy (Pilou Asbæk).

Ela simplesmente não teve uma história, uma das melhores personagens da série passou intermináveis horas simplesmente esperando a trama chegar até ela. É mais horrível ainda pensar que o desfecho dado para Cersei é totalmente anti-climático, a personagem merecia uma morte mais digna do que apenas ser soterrada durante o ataque de Daenerys.

Lógico, não precisava de uma batalha coreografada entre Cersei e Daenerys, mas uma morte nos moldes da de Olenna Tyrell na temporada anterior teria sido mais interessante. Talvez até Cersei escapando num último momento ou sendo presa.

Existem destinos piores que a morte e Game of Thrones perdeu a oportunidade de explorá-los ao encontrar o caminho fácil. Cersei morreu porque a série tornou-se o centro da virtude, recompensando os bonzinhos com o manto da invencibilidade (alô Jon Snow e Arya!) e punindo os malvados com a morte.

Claro, os bonzinhos também morreram, mas foi porque a série precisava de alguém virtuoso se sacrificando para servir de muleta para os verdadeiros heróis da história brilharem ou ruírem. Missandei (Nathalie Emmanuel), Jorah Mormont (Iain Glenn) e Theon (Alfie Allen) que o diga!

Mais uma vez, a série se beneficiaria ao trazer resoluções diferentes para seus personagens. Cersei e Jaime (Nikolaj Coster-Waldau) poderiam ter escapado no último minuto por ajuda de Tyrion (Peter Dinklage) e essa traição servido de estopim para o surto psicótico de Dany que causaria a destruição de Porto Real e, quem sabe, a morte do personagem de Dinklage, mantendo a característica da série em matar personagens queridos.

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O Trono de Ferro: tão perto e tão longe

Se tem uma teoria que nunca foi questionada, foi a da loucura de Daenerys. Inclusive, nos livros de George R.R. Martin, a loucura de família é um ponto trabalhado em diversos momentos, com Dany lutando contra essa herança ingrata enquanto tenta retomar o Trono de Ferro.

A grande dúvida era como Game of Thrones traria essa loucura, algo que, se foi explorado nas temporadas anteriores, foi de forma quase inexistente.

É possível sim comprar o surto de Daenerys. E é interessante até como ele se relaciona com o momento político atual, quanto mais extremos nós nos tornamos em nossas convicções, mais oposto se torna aquele que sempre foi apenas razoável. O problema é que a série não faz um bom trabalho ao apresentar as motivações para o surto.

É a briga entre o que é mostrado versus o que é falado. Se você se baseia apenas por Euron matando um dos dragões da e a morte de Missandei por Cersei, você não encara tanto como surto, e sim como uma reação coerente de alguém que viu aliados caindo aos poucos ou a traindo, caso de Varys (Conleith Hill).

Agora, se você interpreta o surto pela conversa entre Tyrion e Jon no último episódio, aí sim você compra a ideia da loucura de Daenerys Targaryen. E esse é o maior problema: uma cena entre dois personagens explicando a psique dela consegue fazer mais pela ideia de uma Dany louca do que a série efetivamente mostrando sua paranoia.

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Game of Thrones jogou toda a sutileza pela janela desde a sétima temporada, por mais que quisesse fingir que não.

Não à toa a temporada foi marcada por foreshadowings ridículos (o cavalo de brinquedo na mão da menina queimada em Porto Real se assemelhando ao cavalo usado por Arya no fim do episódio cinco), simbolismos óbvios (Drogon derretendo o Trono de Ferro após a morte de Daenerys) e teorias que não serviram de nada (o símbolo dos White walkers na parede com o Lorde Umber morto no centro).

Tem-se a sensação que toda a trajetória de seus personagens foi comprimida, dilacerada e picotada para caber dentro da caixa que os roteiristas definiram para os episódios finais. Simplesmente mandaram para o inferno a personalidade de todos na série e se preocuparam em apenas amarrar pontas soltas.

É um fim agridoce para uma série que marcou um momento de muitas transformações no mundo do entretenimento. Ele de maneira alguma deturpa toda a jornada prévia, Game of Thrones ainda é um primor técnico e prático na maneira de fazer TV e o conjunto da obra é extremamente positivo.

Não é perfeito, mas ainda assim é digno de aplausos.

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