Fox é agora da Disney – Tudo o que você precisa saber sobre a compra

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As últimas semanas foram agitadas para quem acompanha o mundo do entretenimento. Afinal, foi divulgado que a Walt Disney Co. estava em negociações para compra de parte da 21st Century Fox. Isso incluiria personagens e franquias que são de direito do estúdio indo para debaixo da sombra de Mickey Mouse e companhia.

Na manhã de quinta-feira (14), o acordo finalmente foi fechado e os detalhes da fusão começaram a ser divulgados, seguem os detalhes (informações da Variety e ComingSoon.net):

  • A Disney desembolsou US$ 52,4 bilhões na compra e assumiu uma dívida de US$ 13,7 bilhões do estúdio. O total do negócio foi de US$ 66,1 bilhões de dólares;
  • Os acionistas da Fox tiveram seus investimentos convertidos em ações da Walt Disney Co. em valores equivalentes ou próximos, assumindo cerca de 25% das ações da empresa;
  • Fazem parte da Walt Disney Co. as seguintes divisões da 21st Century Fox: Twentieth Century Fox (cinema), Fox Searchlight Pictures (cinema), Fox 2000 (cinema), Twentieth Century Fox Television (televisão), FX Productions (televisão), Fox21 (televisão), FX Networks (televisão), National Geographic Partners (televisão), Fox Sports Regional Networks (televisão), Fox Networks Group International (televisão), Star India (televisão e distribuição de programas internacionalmente), Hulu (streaming), Sky plc (televisão europeia) e Endemol Shine Group (distribuição);
  • A Fox Broadcasting network and stations (emissoras de TV), Fox News Channel (emissora), Fox Business Network (emissora), FS1 (emissora), FS2 (emissora) e Big Ten Network (emissora), outras divisões de propriedade da 21st Century Fox, não entraram na compra. Será criada uma empresa derivada para cuidar dessas divisões;
  • A Walt Disney Co. também recebe com a compra os contratos de diversos artistas, diretores e produtores que trabalham com a 21st Century Fox. Pode ser que vejamos nomes como Matthew Vaughn (diretor de Kingsman) e Ryan Murphy (criador de Glee e American Horror Story) desenvolvendo trabalhos para a Disney. Vale ressaltar que esse tipo de negociação varia de artista para artista.

Existe muito mais na compra da Fox pela Disney do que apenas os X-Men e o Quarteto Fantástico fazendo parte do Marvel Studios. Explicado alguns termos do acordo, dividi em duas partes (cinema e televisão) para explicar melhor o que vai e o que fica nesse acordo que é um dos mais representativos em Hollywood nos últimos anos.

Os X-Men, que com a compra passam a fazer parte da Walt Disney Co e do Marvel Studios

Os X-Men, que com a compra passam a fazer parte da Walt Disney Co e do Marvel Studios

Cinema

A 21st Century Fox não sobrevive de X-Men, Deadpool e Quarteto Fantástico. Lógico, eles são os bens mais interessantes para o publico na conversa entre Disney e Fox, mas existem muitas outras oportunidades no horizonte da Disney com o recente acordo.

Serão integrados à Disney franquias e personagens como Alien, Predador, Duro de Matar, Independence Day, Maze Runner, Planeta dos Macacos, Avatar e A Era do Gelo. Vale destacar que, no caso do Quarteto Fantástico, os direitos dos personagens não fazem parte da Fox, e sim da Constatin Films.

A Constantin Films foi responsável por uma esdrúxula adaptação dos personagens em 1994 e os filmes do Quarteto que saíram nos anos 2000 (tão esdrúxulos quanto, convenhamos), só foram possíveis graças à acordos entre a Constantin e a Fox. Algo semelhante deve (ou já pode) acontecer com a Disney. Acredito ser pouco provável que o Quarteto fique de fora das compras de Natal da Disney (via RottenTomatoes).

Um ponto importante é que a Disney agora é dona da Fox Searchlight, divisão da 21st Century que nos últimos anos marcou presença em premiações. Só de Oscar de melhor filme, vencedores como 12 Anos de Escravidão, Birdman e Quem Quer Ser um Milionário?, além dos recém indicados ao Globo de Ouro e SAG Awards, A Forma da Água e Três Anúncios para Um Crime (via Slate).

Isso alavancaria a relevância da Disney em premiações, visto que a empresa ficava restrita nos últimos anos principalmente a indicações em categorias técnicas ou animações.

Nem todos estão contentes com a compra. Diversos produtores apontaram (via Variety) que a Disney nunca foi uma empresa de assumir riscos e dar liberdades criativas para seus cineastas. O artigo da Variety questiona se a Disney lançaria filmes como A Forma da Água, de Guillermo Del Toro, sobre uma zeladora muda que se relaciona com uma criatura aquática, ao invés de mais um sucesso de bilheteria como Thor: Ragnarok.

Sally Hawkins e Octavia Spencer em cena de A Forma da Água

Sally Hawkins e Octavia Spencer em cena de A Forma da Água

Sim, filmes como A Forma da Água são baratos de se produzir (teve orçamento em 19 milhões de dólares). Entretanto, para os estúdios, mais compensa gastar 300 milhões em um filme que rende 2 bilhões por ter uma audiência acessível como foco do que em cinco filmes autorais de 20 milhões que sofrem para se pagar, por mais relevantes que sejam em premiações. Relevância não paga conta.

Isso não quer dizer que a Disney só apostará em blockbusters, mas especula-se que filmes que antes seriam produzidos pela Fox Searchlight, hoje não teriam as mesmas oportunidades de antes. Trocando em miúdos: se em 2008 a Searchlight apostou em Quem Quer Ser um Milionário?, hoje, com a Disney no comando, o panorama poderia ser completamente diferente.

Outro ponto a ser levantado é sobre a participação agressiva da Disney na hora de distribuir seus filmes nos cinemas.

Muitos cinemas americanos se recusaram a exibir Os Últimos Jedi por conta de uma política da Walt Disney Co. de que os cinemas repassariam ao estúdio 65% do valor dos ingressos, a porcentagem foi uma das mais altas já estipuladas pelos estúdios (o comum é ficar entre 55-60%). Além disso, a Disney exigia que os cinemas exibissem o filme por pelo menos quatro semanas nas salas principais dos estabelecimentos, que são, geralmente, maiores, mais tecnológicas e caras (via BusinessInsider).

Essas regras são apenas para Os Últimos Jedi, mas abriu precedentes para que o estúdio faça isso com lançamentos semelhantes. Some essas regras ao fato de que, com a compra da 21st Century Fox, a Disney estará massivamente nos cinemas. Na certa, os outros estúdios estão preocupados com a queda nos rendimentos de seus filmes.

Nesses casos, não se trata da qualidade das produções, e sim de dinheiro. A Disney vai exigir que os outros estúdios (Warner Bros., Lionsgate, Sony, Universal, etc) corram menos riscos e apostem em filmes que concorrerão em igualdade de bilheteria com as produções da concorrência.

A possibilidade é que os outros estúdios invistam em demandas que a Disney não atende com frequência (terrores e comédias românticas) a fim de pegar essa fatia da bilheteria. Ainda assim, questiono se será suficiente sobreviver disso sem descambar para as intermináveis sequências de Velozes e Furiosos e filmes do tipo que, mais uma vez, tem mais a ver com dinheiro do que com qualidade.

É esperar para ver como o mercado e os estúdios irão se comportar com a compra.

Imagem de The Orville, série da FOX e produzida pela Fox Television

Imagem de The Orville, série da FOX e produzida pela Fox Television

Televisão

Talvez seja um dos casos mais emblemáticos e incertos dessa venda (via TV Guide). A começar que a Disney já é mantenedora da ABC e Freeform. Se comprassem o canal FOX e tentassem gerenciar a emissora, seria extremamente criticada por querer ter em posse três canais abertos comandados por uma só empresa.

A Walt Disney Co. comprou a Fox Television, estúdio de TV responsável por produzir muitas das séries que são exibidas no canal FOX, mas não todas. Algo que ocorre comumente nas emissoras é ela mesma produzir a própria série, como é o caso de 30 Rock, produzida e exibida pela NBC.

Isso não é lei. Muitos canais compram os direitos de exibição de um programa sem necessariamente ser a produtora dela. Esquema é semelhante ao que acontece na TV por assinatura brasileira. Nos Estados Unidos, por exemplo, a série Modern Family é exibida pela ABC e produzida pela Fox Television.

O exemplo de Modern Family é interessante, já que agora que a Disney, dona da ABC, tem em posse o estúdio que produz a série, ela pode mandar e desmandar criativamente na mesma. Entretanto, isso pode ameaçar o destino de muitas séries, como ficará The Gifted, produzida pela Fox Studios e exibida pela FOX com a compra? Ela se torna, em teoria, uma série sem canal.

Melissa Fumero, Andy Samberg, Terry Crews e Joe Lo Truglio em cena de Brooklyn Nine-Nine

Melissa Fumero, Andy Samberg, Terry Crews e Joe Lo Truglio em cena de Brooklyn Nine-Nine

É importante lembrar que a Disney não vai sair passando a faca em todas as séries produzidas pelo Fox Television e a FOX ficará sem ter o que exibir na sua grade. Cada uma dessas produções tem uma série de contratos específicos de cada uma e isso será acertado com o tempo.

Para se ter uma ideia de como essas negociações são complexas, Brooklyn Nine-Nine é uma série exibida pela FOX e produzida pela Fox Television em parceria com a Universal Studios (mantida pela NBC). Como a série ficará com o acordo Fox-Disney? Difícil dizer, principalmente que ela tem o agravante de sofrer com baixos índices de audiência.

Algumas séries como Os Simpsons e The Orville, que já receberam ordens de novas temporadas, estão seguras na grade da FOX por enquanto. Ainda assim, espere por séries sendo canceladas ou migrando de canal nos próximos meses.

Para a FOX, como emissora, existe uma certa liberdade em não depender de forma tão estreita do que o Fox Television faz, com a possibilidade de comprar direitos de exibição de estúdios de TV menores, como a Sony Pictures Television, isso pode render uma reestruturação completa na grade da emissora.

No caso do FX, canal a cabo que foi adquirido no pacotão da Disney, tanto a emissora quanto o estúdio que produz suas séries, FX Productions, gozam de relativa segurança. Enfatizo o “relativo” porque o FX e o FXX sempre foram canais conhecidos por suas produções transgressoras como American Horror Story e It’s Always Sunny in Philadelphia. É difícil pensar em uma empresa como a Disney dando a liberdade criativa que o FX sempre teve em suas séries. Isso se mantiverem o canal.

Basta lembrar que a Disney reformulou completamente a ABC Family e criou o Freeform no lugar. O FX e o FXX precisam provar sua relevância daqui pra frente se quiserem continuar a pleno funcionamento.

Hulu, serviço de streaming concorrente da Netflix e de propriedade da Walt Disney Co. com o recente acordo

Hulu, serviço de streaming concorrente da Netflix e de propriedade da Walt Disney Co. com o recente acordo

Por último, mas não menos importante, a compra da 21st Century Fox pela Disney dá a eles o controle do Hulu, serviço de streaming concorrente da Netflix que tem apresentado produções sucesso de crítica e público como The Handmaid’s Tale.

Já foi anunciado que a Disney planeja investir no seu próprio serviço de streaming e o Hulu parece que vem para preencher essa lacuna (via Variety). Unir o catálogo de produções da Fox com o da Disney em um único serviço é um passo que causaria dor de cabeça na Netflix. Não apenas isso, espera-se que com a compra, o Hulu comece a ser disponibilizado em outros países.

A Disney tornou-se dona do Hulu, mas ainda assim divide ações da empresa com a Time Warner, Fox e NBCUniversal. Apesar de dona, a NBCUniversal conseguiu relevância no conselho de acionistas da empresa ao longo dos anos através de diversos acordos com a justiça americana. Esses acordos expiram em 2018 e espera-se uma briga judicial entre a NBCUniversal e a Disney sobre o futuro do Hulu.

Muitas mudanças acontecerão internamente na Disney e no que sobrou da 21st Century Fox nos próximos anos e isso pode render coisas boas ou não para o consumidor. Dá pra ficar muita empolgado com o que pode vir daqui pra frente ao passo que dá pra temer as próximas ações da gigante que está se tornando a Walt Disney Co.

É esperar pra ver.

O que você está achando dessa fusão histórica em Hollywood? Tem dúvidas sobre o que pode acontecer daqui pra frente? Deixe seus comentários!


Este post só foi possível com a ajuda de Murilo Rosella e outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui.

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