Insatiable é tão ruim quanto parece

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Eu sou um entusiasta do humor negro, daquele politicamente incorreto que provoca riso pelo desconforto. Grande parte das comédias que consumo partem desse riso desconfortável e Insatiable despertou minha curiosidade justamente por tratar de um assunto com potencial para o politicamente incorreto fazer o que faz de melhor: criticar comportamentos da sociedade sem poupar ninguém no processo.

Entretanto, o trailer de Insatiable, da Netflix, foi um momento horroroso na divulgação da série, dando a entender se tratar de uma produção completamente ofensiva para quem, assim como sua protagonista, sofre ou sofreu com o sobrepeso e o bullying.

Trailers enganam, lógico. Só que não foi o caso de Insatiable, a série é realmente o que o trailer apresenta. Talvez até pior.

Debby Ryan e sua fat suit

Debby Ryan e sua fat suit

Criada por Lauren Gussis (que trabalhou como roteirista de Dexter) e com produção de Ryan Seacrest, Insatiable acompanha Patty Bledell (Debby Ryan), uma adolescente obesa que sofre bullying no colégio e descarrega suas frustrações na comida e em filmes da Drew Barrymore.

Após ser agredida por um morador de rua (Daniel Thomas May), Patty tem a mandíbula destruída e passa três meses se recuperando do ferimento numa dieta líquida que a faz perder peso (como alguém que recentemente emagreceu consideravelmente, gostaria de saber o que ela usou para acabar com as estrias ou flacidez, certeza que não foi Hinode!)

Magérrima, Patty encara a mudança como uma oportunidade de se vingar de todos que fizeram mal a ela. Para isso ela se alia à Bob Armstrong (Dallas Roberts), um advogado desacreditado após uma falsa acusação de assédio e que também enfrentou a obesidade na adolescência.

E é nessa premissa de que a magreza dá a confiança necessária para Patty se vingar que Insatiable tenta criticar padrões de beleza, com um tiro que sai completamente pela culatra por um roteiro pavoroso.

Quando você produz algo humorístico, eu tenho para mim três teses de como fazê-lo. A primeira, é escrever personagens sob um viés afirmativo, pegue o Barney de How I Met Your Mother, por exemplo. A graça dele está em justamente ser um personagem mulherengo e como ele e a série encaram seu estilo de vida.

O contrário disso fica num viés condenatório (HIMYM também flerta com isso, claro), mas talvez o exemplo mais claro e que tenha seus paralelos com Barney fique com Tom Haverford de Parks and Recreation. A graça dele fica em ser um personagem mulherengo que não tem noção nenhuma do bom senso. A risada vem pela vergonha alheia.

E o terceiro viés é aquele que se retira da equação. Aquele humor que não condena, mas também não afirma comportamentos. É o que produções como Choque de Cultura, It’s Always Sunny in Philadelphia e Crazy Ex-Girlfriend fazem. Em que a graça fica na representação mais cirúrgica possível de um personagem e no espectador ser pego de sobressalto em não saber identificar se é um humor que condena ou afirma comportamentos.

Todas as séries caminham entre esses três vieses, dadas as suas devidas equivalências e intenções, e o fazem de forma natural e que funciona por conta de um roteiro excelente.

Dallas Roberts e Debby Ryan em cena de Insatiable. Protagonistas de uma série que erra completamente o alvo.

Dallas Roberts e Debby Ryan em cena de Insatiable. Protagonistas de uma série que erra completamente o alvo.

Insatiable tenta se retirar da equação focando nos exageros, mas adota uma maçaroca estranha de afirmações e condenações que a única coisa que sobressai é um roteiro extremamente mal trabalhado.

Os diálogos da série se mostram a pior coisa dela, insistindo em falas expositivas e narrações em off redundantes. Não existe espaço em Insatiable para uma sutileza no roteiro que ajudaria o humor a funcionar. Algo essencial para que a série se retirasse da equação e tornasse uma representação cirúrgica da gordofobia presente na sociedade.

A série se esforça e até consegue entregar um bom texto eventualmente. Nos dois primeiros episódios, surgem bons momentos em que Debby Ryan desponta com uma boa atuação ao representar de forma precisa alguém que ainda não se sente bem consigo mesma porque nunca foi ensinada a ter esse sentimento. É uma sensação de fácil identificação e que elevaria o nível de Insatiable se não fosse pelos intermináveis momentos ruins que vem em seguida. Instabilidade é a regra de série.

Instabilidade que hora aponta o foco para o personagem de Christopher Gorham, no papel de um promotor rival de Bob, dando risada dele ser alguém dentro dos padrões de beleza para logo em seguida usar do humor para afirmar esses mesmos padrões. Não dá para entender as intenções de Insatiable.

A falta de coerência dá espaço para fazer da série um desserviço aos debates sobre gordofobia, bullying, assédio sexual e pedofilia.

É isso que Insatiable é, uma série que quis ser consciente e trazer uma boa discussão sobre temas sérios através do humor, mas é tão mal feita na sua escala mais básica que acaba tendo o efeito contrário.

Pelo menos a trilha sonora é boa.

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