Manda que eu escuto #22 – Adoniran Barbosa

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Em 1945, Paulo Vanzolini compôs o samba Ronda. O sucesso da música só veio em 1953, quando a mesma foi gravada na voz de Inezita Barroso. A gravação aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, na mesma oportunidade em que Inezita gravara em disco a ‘Mosa da Pinga’.

No dia em questão, as pessoas do estúdio estranharam um samba paulista, uma vez que o Rio é o berço do ritmo, a ponto de dizer que aquilo não existia. Onde que paulista sabe fazer samba? Como eles estavam enganados.

Paulista não apenas sabe fazer sabe como fazer samba, como é a casa de um dos maiores nomes do gênero. Poucos compositores retrataram as malocas da vida com tanta precisão. Cheio de erros de grafia e concordância, embalado pelos seus quais-quais-quais, Adoniran Barbosa é um dos maiores expoentes do ritmo.

A pedido para Patrícia Levazzo, pelo nosso e-mail, Adoniran Barbosa será o personagem da vez no Manda que eu escuto. Dê o play e vem com a gente nessa viagem musical.

Adoniran e sua musa, a cidade de São Paulo

Adoniran Barbosa nasceu na cidade de Valinhos, em 1910. Seu nome verdadeiro é João Rubinato. O artístico veio de referências, já que, segundo ele mesmo, João Rubinato não era nome de artista. Adoniran foi pego de um grande amigo, enquanto Barbosa foi em homenagem ao sambista Luiz Barbosa.

Filho de imigrantes italianos, Adoniran abandonou a escola cedo por não gostar de estudar. Desde novo, então, passara a ajudar a família, que ainda contava com outros sete irmãos. Seu primeiro ofício foi entregador de marmita, em Jundiaí. Além disso, foi Foi tecelão, balconista, pintor de paredes e garçom. Mas o sonho mesmo era a carreira das artes.

Suas primeiras aparições em rádio se deram no início da década de 1930, quando ele passou a frequentar programas de calouros. A primeira vitória aconteceu em 1933, após conquistar o primeiro lugar no programa de Jorge Amaral cantando “Filosofia“, do sambista Noel Rosa.

Dois anos depois, em 1935, compôs sua primeira música, intitulada Dona Boa, que teve parceria do maestro e compositor J. Aimberê na letra e melodia. A canção foi eleita a melhor marcha do carnaval paulistano naquele ano.

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Em 1941, ele se transfere para a Rádio Record, vindo da Cruzeiro do Sul, a convite de Otávio Gabus Mendes. Lá ele começou a participar de radioteatros. Sua primeira aparição foi em Serões Domingueiros.

Ali começara sua atuação no rádio, onde os mais diversos personagens ganharam vida, como o malandro Zé Cunversa ou Jean Rubinet, um galã de cinema francês. A principal característica de seus personagens e, posteriormente, de suas canções, eram os erros de linguagem. Tudo justificável.

Ele disse em entrevista que fazia assim pois o povo falava errado, por isso os erros se faziam presentes em suas produções. Apesar disso, as críticas vinham, como fora feita pelo poeta Vinícius de Moraes.

Adoniran, por sua vez, dava de ombros. “Só faço samba pra povo. Por isso faço letras com erros de português, porquê é assim que o povo fala. Além disso, acho que o samba, assim, fica mais bonito de se cantar.”

Ainda na Record, Adoniran começou a trabalhar com o produtor Osvaldo Moles, responsável por criar a maioria dos personagens interpretados por Barbosa. O mais célebre foi Charutinho, do programa “Histórias das Malocas“.

Essa parceria não ficou restrita apenas aos programas de rádio. Ela ganhou as partituras e letras de músicas. Entre as mais famosas, temos “Tiro ao Álvaro” e “Pafúncia“.

Osvaldo e Adoniran. Do rádio para as músicas

Osvaldo e Adoniran. Do rádio para as músicas

A carreira de Adoniran passou a explodir de verdade após o início da parceria com o grupo Demônios da Garoa. É difícil explicar isso em palavras, mas um complementava o outro de uma forma mágica que somente as canções podem explicar.

O primeiro sucesso da parceria foi o samba ‘Malvina‘, que já havia sido gravado, mas só estourou na voz dos Demônios, dali para frente, tudo acabou em samba. Trem das Onze, Saudosa Maloca, Samba do Arnesto, As Mariposas, Joga a Chave, Vila Esperança, Samba Italiano

Sem os Demônios, Adoniran Barbosa poderia não ter feito o mesmo sucesso, da mesma forma que não teríamos os Demônis sem a genialidade de Adoniran Barbosa, como eles mesmos disseram no programa Samba na Gamboa, da TV Brasil, apresentado por Diogo Nogueira.

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Parceria entre Adoniran Barbosa (de chapéu) e os Demônios da Garoa é antiga, como mostrou o programa Mais Caminhos, da EPTV

Além da música, Adoniran atuou. É possível vê-lo nos filmes, como conta o Almanaque Folha, e, “Pif-Paf”, seguido de “Caídos do Céu”, em 1946, ambos dirigidos por Ademar Gonzaga. Em 1953, atuou em “O Cangaceiro”, de Lima Barreto. […] começou a atuar em programas humorísticos como “Ceará Contra 007” e “Papai Sabe Nada” da TV Record, além de ter participado das novelas “Mulheres de Areia” e “Os Inocentes”.

Figura emblemática, que tinha medo de andar de elevador pois o mesmo poderia cair, Adoniran não comprava cigarros, pois assim fumaria muito. Sua carreira chegou ao fim em 1982, aos 72 anos de idade, vítima de efisema pulmonar.

Ao todo, foram gravados 12 discos, sendo dois lançados após sua morte. Ainda chegaram ao mercado outras sete coletâneas que reuniram seus inúmeros sucessos. Sue obra perdura até hoje, principalmente na voz dos eternos parceiros, Demônios da Garoa.

– TOP 3 – 

Saudosa Maloca

Não tem como falar de Adoniran Barbosa sem lembrar de Saudosa Maloca. A música, de 1951, é, até hoje, a maior canção composta por Adoniran. Ela conta a história de três homens que perdem sua maloca após o prédio abandonado ter sido demolido.

Trem das Onze

Outro grande sucesso do cantor. De 1964, a música fez sucesso principalmente nas vozes do Demônios da Garoa, cheio de seus quais-quais-quais e os pascalingundum.

Tiro ao Álvaro part. Elis Regina

Fechando a seleção, um dueto improvável e contrastante. A voz um tanto quanto fanha de Adoniran ao lado de Elis Regina, a maior cantora que o Brasil á teve


Já conhecia o trabalho do Adoniran Barbosa? Deixe nos comentários o que você achou da dica e acompanhe o trabalho deles no Spotify;

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Este post só foi possível com a ajuda de André Cabrero e muitas outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui.

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