O retorno regenerado de Doctor Who

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São tempos sombrios esses que vivemos, não há como negar. Tempos em que o mundo como conhecemos sofre uma mutação constante, flertando com tudo que há de bom e ruim no mundo. E a televisão tem um papel fundamental na hora de refletir, através das suas críticas travestidas de entretenimento, que ainda é possível admirar o melhor da raça humana, por mais sombrios que sejam os dias que nos aguardam.

E Doctor Who talvez seja uma das pouquíssimas séries que tem consciência (adquirida ao longo de cinquenta anos de história) do poder da TV em explorar essas mudanças. É por isso que uma renovação para a série se mostrou uma jogada acertada.

Comentei sobre como DW sofreu com inchaço de tramas criado por Steven Moffat no texto sobre a décima temporada e não irei me repetir aqui. A temporada passada não apenas remediou esse inchaço como preparou terreno para uma transição mais palatável para a saída de Peter Capaldi no papel do Doutor e a chegada de Jodie Whittaker no papel principal tendo Chris Chibnall no comando substituindo Moffat.

A décima primeira temporada, que estreou ontem (07) é reflexo dessa necessidade de mudança na série. Esta que teve sua dose de polêmicas, visto que é a primeira vez que uma mulher é escolhida para interpretar o Doutor — um alienígena que se regenera para um novo corpo e personalidade quando à beira da morte —, uma decisão considerada hedionda para as dezenas de fãs homens de Doctor Who com mais de quarenta anos que tem problemas de masculinidade frágil (estendo minha mão em solidariedade às mães desses homens que tiveram que limpar o quarto deles ouvindo o choro desconsolado após descobrirem sua série favorita sendo destruída pelo feminismo).

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No episódio de estreia, a Doutor (O Doutor? A Doutora? Escolha o que preferir) chega à Terra recém regenerada e logo dá de cara com uma misteriosa manifestação alienígena que põe em risco a vida de Grace (Sharon D. Clarke) e seu marido, Graham (Bradley Walsh). Essa ameaça se estende ao neto de Grace, Ryan (Tosin Cole) e sua ex-colega de escola, Yaz (Mandip Gill), uma policial que sente que deveria fazer mais da vida.

Mudanças são coisas capciosas, eu entendo (em partes) quem esperava o pior da escolha de Whittaker como Doctor e com a série no comando de Chibnall. Entretanto, meu pessimismo mais tinha a ver com o crescente desgaste que eu sinto que DW enfrenta. A entrada de Whittaker e Chibnall poderia ser muito boa para a série ou muito ruim, e nenhum desses caminhos tem a ver com a escolha de uma mulher como Doctor. Péssimos desempenhos acontecem qualquer que seja o gênero dos seus envolvidos.

O episódio apresentou de forma competente o grupo de companions (Yaz, Ryan e Graham) e grande parte das dinâmicas. Bem como a figura de Whittaker como uma Doutora que lembra muito o de Matt Smith e David Tennant ao trabalhar a comédia física (diferente do adorável Doutor rabugento de Capaldi).

“The Woman Who Fell to Earth” traz boas atualizações em cima do que já conhecemos da série, segurando-se ainda assim no que faz Doctor Who ser a série que é, uma grata mudança que não promete perder a essência da série no caminho, mas sim evoluí-la.

Por outro lado, o episódio não fez muito além de apresentar plots e conceitos que já conhecemos de antemão, dando a impressão de que, na verdade, ele não teve nada de diferente. Ainda tá tudo muito bom, mas isso pode evidenciar um problema em potencial para a série.

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Ele funciona perfeitamente como uma boa introdução para novos públicos, sendo acessível em muitos conceitos da série e não desmerecendo a jornada dos fãs mais antigos. O problema é que essa característica cíclica de DW acaba sendo a benção e a maldição da série.

É divertido ver esses “reboots” e como seus conceitos básicos são sempre recombinados de forma inteligente com a entrada de novos companions ou um novo Doutor. O problema é que isso também gera um potencial cansaço no espectador mais fiel, é difícil ter-se um senso de estabilidade quando as regras do jogo são reiniciadas a todo instante.

E é nesse problema em potencial que a figura de Chris Chibnall como novo cabeça de Doctor Who se mostra muito mais importante do que nunca. Ele (que trabalhou com Broadchurch e Torchwood, spin-off de DW) tem a missão de encontrar um equilíbrio delicado para convencer ter sido uma boa escolha após a saída de Steven Moffat, que foi responsável por grande parte do sucesso da série internacionalmente.

O resultado nesse primeiro episódio foi positivo, ainda tenho a impressão que faltou um ritmo mais apurado com a trama, acredito ser problemas de tom comuns à todas as séries e temporadas. A expectativa é para que continue tudo dando certo para Doctor Who e a nossa nova Doutora!

O que você achou desse retorno de Doctor Who? Deixe seus comentários, allons-y!

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