Ouvimos: Florence + The Machine – High As Hope

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Florence + The Machine sempre foi para mim uma espécie de terapia, uma religião da qual eu me agarrava em momentos de necessidade. Desde Lungs, álbum de 2009, a banda comandada por Florence Welch proporcionava canções que lançavam seus fãs à um novo estado de espírito. Seja visitando lugares fantásticos da nossa mente (como é versado nas canções de Lungs que quase emulam uma fantasia repleta de elos, fadas, etc), nossa religiosidade (Ceremonials, de 2011) ou as consequências da fama (How Big, How Blue, How Beautiful, de 2015).

How Big, How Blue, How Beautiful já havia sido um álbum diferente dos demais, ao versar sobre negatividades do sucesso e como aceitá-las expande a compreensão do nosso ser. O disco de 2011 mostrava como a busca pelo que é etéreo não depende de fantasias ou religiosidades, e sim que pode ser algo mais palpável ao tratar de temas reais. High As Hope, lançado hoje (29), explora a sugestão do álbum anterior de forma mais otimista ao tratar do que é mundano: família, relacionamentos e vícios.

Capa do álbum "High As Hope", quarto trabalho de Florence + The Machine

Capa do álbum “High As Hope”, quarto trabalho de Florence + The Machine

June” abre o álbum numa canção que cresce com o tempo, se referindo de forma indireta ao massacre na boate Pulse, na Flórida em 2016. Na ocasião, 50 pessoas morreram depois que um atirador disparou contra quem estava no local que tinha como público alvo a comunidade LGBTQ+ da região.

Welch discorre na canção sobre como o “amor se torna um ato de protesto durante os dias mais sombrios de junho”, ditando a temática do álbum ao tratar de como a esperança nos eleva.

A segunda faixa, “Hunger“, cumpre bem a cota de hit ao ser estruturalmente fácil de aprender para cantar junto. Isso nunca será um demérito para ninguém, e Welch não apenas tem consciência disso como consegue fazer da canção mais chiclete do álbum um momento de graciosos simbolismos e revelações sobre sua própria vida.

“Hunger” fala sobre nossas vontades de sermos preenchidos por algo que livre-nos da solidão, e como essa busca acaba esbarrando em coisas irreais. Além disso, a canção é a primeira vez que Welch fala publicamente sobre os distúrbios alimentares que teve na adolescência, sugerindo um tom mais pessoal no álbum.

South London Forever“, terceira música de High As Hope, afirma o tom pessoal sugerido anteriormente ao tratar do alcoolismo de Welch e como as mudanças ao longo da sua carreira à levaram até o lugar em que está hoje: sóbria e numa busca constante por novos e inexplorados refúgios da sua mente.

Big God“, a quarta, lida com essa busca incessante pelo preenchimento de vazios existenciais e, curiosamente, sobre crushs que não respondem mensagens. É uma leitura inusitada para a canção vinda de uma artista que sempre buscou simbolismos bem mais fantásticos para suas letras, o que torna tudo bem mais interessante.

A busca por um “Deus maior” pode ser vista como a idealização que fazemos dos outros nos relacionamentos que cultivamos, o que muito tem a ver com a expectativa daquela mensagem que você fica aguardando.

A quinta canção de High As Hope, “Sky Full Of Song“, foi o primeiro single lançado e pode ser lida como uma reflexão sobre Welch elevando-se à algum plano astral e precisando de ajuda para retornar à realidade. É a dualidade que ela sempre trabalhou em suas canções: talvez cantar em busca do nirvana seja a nossa danação ao invés da salvação.

Grace“, sexta faixa, trabalha esse puxão de volta para a realidade na figura da irmã mais nova de Florence. É, de longe, a canção mais pessoal e emotiva (se você tiver irmãos) do álbum. Welch refere-se na canção à sua dislexia, seu alcoolismo e como sua irmã a ajudou em diversos momentos.

É uma balada simplista que, garças ao talento vocal dela, consegue ser elevada à décima potência.

A canção seguinte, “Patricia“, segue o formato de “Grace” ao cantar dessa vez sobre Patti Smith, autora que serviu de inspiração para diversos momentos da carreira de Welch. É uma canção interessante já que Smith sempre buscou em seus trabalhos exaltar os pontos positivos da vida, o que vai ao encontro das propostas de High As Hope.

Um ponto interessante de High As Hope é que ele soa um disco mais politizado, sugerido por músicas como “June” (suporte à comunidade LGBTQ+), “Grace” e “Patricia” (exaltando figuras femininas inspiradoras).

Nada tão explícito quanto “100 Years“, oitava faixa do disco, que mergulha fundo ao tratar dos recentes casos de terrorismo em eventos musicais que vitimaram diversas pessoas ao redor do mundo. Quando Welch canta que “tente nos encher de ódio e nós responderemos com luz” é um manifesto de que o terror não calará quem tem esperança através da música.

Na penúltima canção, “The End Of The Love“, Welch complementa o que foi dito em “Hunger”, questionando se o amor acaba quando nos sentimos completos e nossas necessidades são supridas.

A  canção também traça um paralelo com sua família, mencionando, inclusive, a avó dela, que se suicidou quando Welch tinha 13 anos.

No Choir” encerra High As Hope com um tom intimista, refletindo sobre a felicidade que se manifesta no silêncio. É um ponto fora da curva se compararmos com os álbuns anteriores, que encerravam com uma nota mais dançante e/ou apoteótica.

High As Hope é familiar, não oferece o mesmo grau de experimentação que How Big, How Blue, How Beautiful, soando como um álbum intermediário em preparação para o que está por vir. Nem por isso Florence + The Machine se perde no que está acostumada a fazer em seus álbuns, existe um simbolismo bem mais palpável e de fácil interpretação nesse quarto disco, mas ele faz jus à sua proposta de ser um trabalho que preza pela simplicidade.

Regado de boas músicas com uma sonoridade que explora ao máximo o poder vocal de Florence Welch, High As Hope é uma obra de arte que celebra os pontos negativos e positivos das esperanças e desejos que habitam dentro de cada um.

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