Stranger Things – Crítica

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Imagine que Stephen King e Steven Spielberg se juntaram durante uma agradável tarde de verão para tomarem café e discutir ideias sobre algum futuro projeto que ambos tem em mente… Ok, agora acrescente a essas ideias o contexto da Guerra Fria, Arquivo X e vastas referências à cultura popular. Imaginou? Pois bem, possivelmente o resultado seria algo próximo à Stranger Things, a nova série da Netflix, dirigida pelos The Duffer Brothers, que estreou no dia 15, abrangendo os gêneros do drama, suspense sobrenatural e ficção científica para construir seu enredo.

Com seus episódios intitulados como capítulos, de forma que a série seja vista como um livro, a história se passa na pequena e, até então, tranquila cidade (fictícia) de Hawkins, no Indiana, onde vivem Will (Noah Schnapp), Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin), quatro amigos inseparáveis. Em determinado dia, após horas jogando Dungeons e Dragons – como de costume –, os amigos se despedem e retornam para suas respectivas casas, porém, durante o trajeto, Will desaparece sem deixar qualquer vestígio, apenas sua bicicleta tombada no mato, e então começa a história repleta de mistérios.

A trama:

Com a busca pelo garoto e os mistérios de seu desaparecimento como trama principal, são desenvolvidas em paralelo a ela outras três histórias, cada uma com seus “personagens principais” e problemas, que nos ajudando a entender melhor sobre partes distintas do evento, como o “por que isso aconteceu, quem é o responsável, quem é o inimigo ou como encontrar Will”. Sendo também uma forma de a trama não ter apenas um personagem principal, e não ficando só a encargo dele resolver todos os problemas.

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Will

E falando de personagens, de maneira bem construída, Stranger Things soube aproveitar os seus nove protagonistas, que se desenvolvem e crescem em cena e importância, visto que cada um possui seu papel fundamental na trama, não soando como algo superficial sua participação. Até mesmo os personagens mais simples e descartáveis possuem sua importância para o desenrolar dos fatos, não estando ali apenas para “encher buraco”. Outro ponto positivo é a forma com que os roteiristas fizeram para que as histórias conversem entre si, com cada personagem descobrindo algo distinto sobre o misterioso evento, rumando individualmente até que, em determinado ponto, os elementos se unam para resolver o problema, trazendo um entendimento completo do que realmente está acontecendo e o porque. É como montar um quebra-cabeça em conjunto.

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A primeira das histórias em paralelo é a da mãe de Will, Joyce, interpretada pela conhecida e ganhadora do Globo de Ouro, Winona Ryder. A personagem representa o tom mais psicologicamente pesado da série, estando à beira da loucura após o desaparecimento misterioso de seu filho e ao começar a lidar com eventos dos quais ela não entende e que ninguém acredita. A atuação de Ryder faz com que a personagem se destaque em diversas cenas, algumas que inclusive me causaram certo desconforto ao ver tal desespero e inquietação dela. Há também o xerife da cidade e amigo de Joyce, o “chefe” Hopper (David Habour), que inicialmente não liga muito para o ocorrido – achando que o sumiço era apenas alguma “brincadeira de criança” – mas que, ao notar pontos sem nós, acaba por se envolver completamente no caso, indo bem mais a fundo e descobrindo coisas das quais “ele não possui permissão para saber”.

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Joyce e Hopper

Já de um ponto de vista mais fantasioso sobre o que acontecera, temos a trama que envolve Mike, Lucas e Dustin à procura de Will, fazendo com que eles, durante a busca pelo amigo na floresta onde a bicicleta estava, encontrem uma criança de cabelo raspado e não muito comunicativa, com o número 11 marcado em seu punho. Após um tempo (e também alguns problemas) a misteriosa garota, apelidada de “El” (abreviação de Eleven, interpretada por Millie Bobby Brown), e eles tornam-se amigos e passam a investigar juntos o que aconteceu, os ajudando também em outros problemas.

Lucas, Dustin, Mike e El

Lucas, Dustin, Mike e El

A outra (última e não menos importante) história que acompanhamos é a do irmão de Will, Leon Jonathan (Charlie Heaton), um jovem excluído e visto como “o estranhão” pelos outros jovens; e Nancy (Natalia Dyer), irmã de Mike, que começa a sair com o popular da escola, Steve (Joe Keery), e que após um estranho acontecimento durante uma festa na casa do rapaz ela se une a Jonathan para entender o que está acontecendo na cidade. Levando-os a presenciar coisas das quais fogem de sua compreensão. É legal ver o crescimento da amizade entre os jovens, evitando aquele enredo típico quando se trata de juventude e romance.

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Jonathan, Nancy e Steve

Elementos de enredo:

Suspense, tensão e um pequeno problema:

Sobre o suspense da série, a ambientação e fotografia foram bem trabalhados, contribuindo para tal sensação – principalmente quando unidas ao drama que as personagens passam. A tensão criada em torno das cenas – graças ao clima sombrio (que lembra Silent Hill) e também à trilha de fundo e ao silêncio – faz com que você fique no estado de alerta em diversos momentos dos episódios, esperando que algo aconteça, principalmente quando ainda não entendemos bem o que se passa. Ah, mas não espere por grandes sustos ou jump scare (que a meu ver foram poucos), como eu disse, a atmosfera fora criada para trazer a sensação de “medo do desconhecido” e não sustos eternos, mesmo que em diversos momentos você consiga prever o que acontecerá, o que acaba não surpreendendo muito. Mas não se preocupe, a série foge dos clichês, apelando apenas para os mais básicos e que, se formos ver, se encaixam bem para o desenrolar dos fato. O maior problema que notei são os efeitos visuais fracos, dando a impressão de que alguns elementos não foram bem-acabados, principalmente o inimigo principal – mas isso não atrapalha em nada.

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We can be heroes, just for one day…

A produção também foi cuidadosa com os efeitos e trilha sonora. Mesmo que não pareça muita coisa, os teclados e sintetizadores que formam o plano de fundo musical e a abertura são marcantes do Synthpop (estilo característico da década de 80), o que contribui – e muito – para a ambientação 80’s e atribuindo o ar de ficção científica à série – principalmente em cenas com luzes (assistam para entender). A trilha sonora não poderia ser diferente, temos em cena (ótimas) músicas de bandas de rock clássicas, como The Clash, Toto, Bowie e The Smiths. Pequenos elementos, mas que melhoram e muito o momento (ainda mais se você curtir tais sons), deixarei ao final do texto a playlist do Spotify com a OST.

Antes de prosseguirmos, alguém não entendeu a referência?

Mas bem, além das músicas e ambientação “vintages”, há também vastas referências à cultura pop em Stranger Things, com elementos que estavam em alta na década de 80 e que são – muito – bem utilizados, visto que os quatro amigos são nerds assumidos: associações com Star Wars e X-Men são uma delícia de se ver e ouvir, e me renderam boas gargalhadas enquanto assistia. Mas o mais legal disso tudo é que tais comentários e referências não soam vazios ou apenas para alívio cômico, sendo eles, na verdade, utilizados como metáforas para garotos compreenderem o que ali está acontecendo. Há também referências explícitas, mesmo que rapidamente, aos clássicos Poltergeist, E.T. – O Extraterrestre (de Spielberg) e à Stephen King, o que conversa bem com a forma que comecei o texto.

netflix-stranger-things-trailerOutro elemento que a série também trouxe foi o sentimento de nostalgia, que tomou conta de várias pessoas que a assistiram e deram seu feedback na web, gerando várias críticas positivas, principalmente daqueles que viveram sua infância em 1980. E, mesmo não vivendo nessa época (eu que nasci em 96), me deixei levar fácil e me identifiquei sem dificuldades com os garotos, que representam bem aquele grupo de amigos (no meu caso até no quesito nerds) que um dia já tivemos ou temos, que são nossos inseparáveis core friends, algo que o tempo (as vezes e infelizmente) faz mudar. Ao nos remeter à tal sensação de infância, onde tudo é fantástico e interessante, acabamos construindo uma ligação com o que nos é apresentado, vendo o evento de forma fantasiosa mas mantendo ao mesmo tempo o clima de suspense, que é visto de vários pontos de vista: seja como “um RPG para os meninos” ou uma “ameaça real e desconhecida” pelos mais velhos.

Considerações finais para uma série promissora:

Sem mais enrolações, Stranger Things cumpre bem sua premissa ao nos passar um enredo limpo e que não soa apelativo ou clichê, evitando enrolações desnecessárias e entregando uma trama bem construída ao utilizar de maneira inteligente todos os seus elementos, envolvendo o espectador, fazendo com que ele (possivelmente) se identifique em diversas situações (espero que não as estranhas). Ah, e para quem se empolgou, a segunda temporada vem por aí! A novidade foi revelada durante uma entrevista para o site francês Premiere pelo ator Matthew Modine – que interpreta o Dr. Martin Brenner na série –, mas a Netflix ainda não se pronunciou.

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Vem season 2 por aí, galera!!!

Logo, a série demonstra que o legado da Netflix em produzir ótimos conteúdos próprios continua forte, e – em apenas dois dias após seu lançamento – já conquistou milhares de fãs com sua história. Sendo, e sem dúvidas, uma ótima opção para você colocar na sua lista de “séries para ver”; principalmente ao levar em consideração que a 1ª temporada é bem curta, com apenas 8 episódios de 50 minutos. Vamos ver, pessoal!

Eaí, tá esperando o que para voltar no tempo e sentir essa nostalgia?

Valeu, galera!

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Stranger Things

Stranger Things
9

Enredo

9/10

    Personagens

    10/10

      Produção

      8/10

        Trilha sonora

        9/10

          Pros

          • Personagens bem desenvolvidos
          • Mantém o clímax
          • Anos 80, galera!

          Cons

          • Efeitos visuais mal acabados
          • Poucos episódios

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