Por que gostamos de personagens desprezíveis?

Navegar por...

Se me perguntassem para responder rapidamente qual a melhor série no ar atualmente, é bastante provável que responda Succession. A série da HBO criada por Jesse Armstrong (Fresh Meat) terminou recentemente sua segunda temporada de maneira praticamente impecável.

Entretanto, parece que Succession não é uma obra de fácil degustação por um simples motivo: seus personagens são absurdamente desprezíveis.

Para quem não conhece, Succession acompanha a família Roy, dona de uma rede de notícias, parques de diversão e até satélites. Quando Logan Roy (Brian Cox) tem um derrame, os podres da empresa começam a surgir enquanto a família se engalfinha em todo tipo de tramoias para escolher o sucessor.

A série é levemente inspirada em famílias reais que pertencem ao 1% dos mais ricos, como é o caso da família Trump, os Murdoch (donos de parte da Fox) e os Redstones (donos da CBS e de diversos parques de diversão nos EUA). Como dá pra notar, o puro suco do privilégio branco fruto do capitalismo e do consumo exacerbado.

Péssimos exemplos a serem seguidos, certo? Certo. Mas então por que uma série como Succession, que pega inspiração em pessoas evidentemente desprezíveis e elevam o pior delas à décima potência, pode ser lida como a melhor série no ar atualmente?

Ora, porque amamos assistir pessoas odiosas sendo, bem, odiosas.

Kieran Culkin em cena de Succession

Kieran Culkin em cena de Succession

Succession aperta os botões certos

Uma coisa que Stephen King fala em Dança Macabra (trad.: Louisa Ibañez. Suma de Letras, 2013) me marcou bastante quando paro para analisar a resposta que obras tem em mim. Ao longo do livro, King discorre sobre os chamados “pontos de pressão” no gênero do terror. Em poucas palavras, pontos de pressão são pequenos pontos (!) dentro da nossa personalidade — seja ela individual ou como comunidade — que, uma vez atiçados por uma obra ficcional, causam uma reação.

No terror, essa sensação quando temos nossos pontos de pressão bem acionados podem ir de espanto, medo, nojo, nervosismo, indiferença ou até alegria. Tudo em suas devidas equivalências levando em consideração que cada pessoa tem pontos de pressão diferentes. É o que explica porque um filme como O Exorcista (The Exorcist, 1973) pode causar espanto em uma pessoa enquanto que Tubarão (Jaws, 1975), um filme tão assustador quanto, pode passar incólume por esse mesmo indivíduo.

Penso que esse mesmo conceito pode ser aplicado em qualquer obra. Como alguém que escreve, procuro trabalhar pontos de pressão em potencial para causar reações no leitor, sejam elas as esperadas ou não. E é aí que entra a graça de Succession.

A série não lida com personagens de fácil identificação. Eu não consigo me solidarizar plenamente com os anseios de Roman Roy (Kieran Culkin) em busca da aprovação do pai porque ele é um personagem mesquinho. Mas ao mesmo tempo, existe uma identificação porque, bem, todo mundo já sofreu para conseguir dar orgulho aos pais.

Em entrevista ao The Hollywood Reporter (e que me inspirou a escrever esse texto), o Dr. Ted Nannicelli, autor do livro “Appreciating the Art of Television: A Philosophical Perspective” [Apreciando a Arte da Televisão: Uma Perspectiva Filosófica, em tradução livre], comenta que o que chama atenção em Succession é que por mais que seus personagens sejam desagradáveis, “a narrativa é intrigante em sua universalidade e atualidade”.

Porque, sim, por mais que você não consiga se identificar com o 1%, o roteiro de Armstrong consegue apresentar personagens que, em suas mais variáveis nuances, apresentam dilemas bastante ordinários. É fascinante e, ao mesmo tempo, assustador encontrar esses pontos convergentes entre o espectador e os personagens de Succession.

Esse é o ponto de pressão que a série cutuca: nos fazer questionar se seriamos tão desprezíveis quanto eles se estivéssemos no mesmo contexto em que eles estão inseridos. Afinal, temos algumas coisas em comum.

Brian Cox e J. Smith-Cameron em cena de Succession

Brian Cox e J. Smith-Cameron em cena de Succession

Dá pra ser melhor

Como a nossa identificação esbarra no contexto em que os personagens de Succession estão inseridos, é interessante notar, e isso quem aponta é a professora de sociologia na Universidade de California Davis, Dr. Laura Grindstaff — também em entrevista ao The Hollywood Reporter —, que existe em Succession um senso de superioridade no espectador.

Em Succession, as falhas morais e atitudes questionáveis dos personagens dão ao espectador um “senso de superioridade ou reivindicação”, afirma Grindstaff. É divertido vermos Kendall Roy (Jeremy Strong) se ferrando episódio atrás de episódio porque sabemos (ou pelo menos acreditamos) que somos seres humanos melhores que ele. A série trabalha seu texto brilhante para trabalhar a ironia presente em ver pessoas estupidamente ricas se dando mal sem nem ao menos perceber.

Claro que não é exclusividade de Succession esse efeito de abrir uma janela para darmos risada (e refletir acerca) da pequenez alheia. Séries como It’s Always Sunny in Philadelphia, UnREAL e até mesmo Choque de Cultura trabalham essa intencionalidade em escalas diferentes.

Séries como Succession funcionam quase que como uma parábola sobre o quão baixo o ser humano consegue chegar se ele abrir mão de muitas coisas em busca do status. Ao longo dos episódios, você acompanha a jornada dos Roy se perguntando em qual momento a consciência vai tomar a frente e forçá-los a melhorar como seres humanos.

Ela apresenta que o potencial de ser uma pessoa desprezível existe, junto com problemas bastante mundanos. A decisão de ser ou não uma pessoa assim depende da aceitação de privilégios, contextos e o que devemos fazer a partir desse entendimento.

Por isso obras com personagens odiosos são tão interessantes. Mostra grande parte do que somos, éramos ou poderíamos ser.

Consegue se identificar com os adoráveis desprezíveis de Succession? Deixe seus comentários.


Ajude o Junta 7 a crescer participando da nossa campanha de financiamento coletivo do Padrim. Para participar e conhecer nosso plano de recompensas, clique aqui!

Comentários

comentário(s)