Sim, The Handmaid’s Tale é essa Coca-Cola toda

Navegar por...

Depois de Westworld, uma série que julguei como apenas boa, mas pretensiosa demais, fiquei um pouco cético quando o público e a crítica especializada começava a bater palmas para alguma série que acabou de sair. Afinal, em tempos internéticos, não se pode falar que uma série é apenas boa, tem que gritar aos sete mares que “ESSA SÉRIE É A MELHOR SÉRIE DE TODOS OS TEMPOS!

Muitas vezes essa adoração exacerbada para com uma produção não faz jus à qualidade dela. Sim, Westworld é uma boa série, Mr. Robot e Stranger Things também, mas não são as melhores séries de todos os tempos, talvez nenhuma série seja merecedora desse título. O ponto é que série badalada demais me cansa, nem tanto pela série em si, mas pela sua legião de fãs hiperbólicos. Às vezes menos é mais.

Algo parecido aconteceu com The Handmaid’s Tale. Quando a série saiu em meados de abril, todo mundo bradou que essa era a melhor série de 2017. Não demorou muito e pensei: “diabos, estamos em abril, ainda tem muito ano pela frente pra falar que ‘essa é a melhor série do ano'”.

Elisabeth Moss em cena de The Handmaid's Tale

Elisabeth Moss em cena de The Handmaid’s Tale

Mais uma vez, a hipérbole me incomodava. Lógico, se alguém me perguntasse se The Handmaid’s Tale é uma boa série eu falaria que sim, mesmo sem ter assistido. Afinal, se grande parte das pessoas que eu sigo no Twitter, em sua maioria viciados em séries dos mais diferentes estilos, falam que essa é uma série incrível, provavelmente eles estão certos.

Ainda assim, meus pré-conceitos me faziam questionar se The Handmaid’s Tale é realmente essa Coca-Cola toda. O único jeito de saldar essas minhas dúvidas foi realmente assistindo a série.

The Handmaid’s Tale, adaptação de O Conto da Aia, livro de Margaret Atwood, conta a história de um Estados Unidos distópico em que o governo foi substituído por uma teocracia. Nesse novo país, as poucas mulheres fertéis são obrigadas a servirem de escravas de indivíduos poderosos e governantes para que esses possam gerar filhos.

Acompanhamos Offred (Elisabeth Moss), uma aia que é designada a servir na casa do Comandante Waterford (Joseph Fiennes) e sua esposa, Serena Joy (Yvonne Strahovski). Offred busca reencontrar sua filha, que foi tirada dela após o país ruir, ao mesmo tempo em que tenta sobreviver à essa nova realidade.

Elisabeth Moss e Yvonne Strahovski

Elisabeth Moss e Yvonne Strahovski

Com quatro episódios vistos (faltam seis), posso compreender o porquê de tanta badalação, The Handmaid’s Tale é uma série incrível. Não, não é a melhor série de todos os tempos (pode ser a melhor série da sua vida) e talvez não seja a melhor série de 2017 (me pergunte em dezembro). Mas ainda assim ela é essa Coca-Cola toda.

The Handmaid’s Tale consegue apresentar o pacote completo: uma boa história, boas atuações, fotografia e trilha sonora bem trabalhada.

É bastante incômodo (no bom sentido da coisa, aquele “incômodo” que te faz refletir) o quão próximo de nós o mundo apresentado pela série consegue ser. É uma distopia crível, você consegue sentir que todo esse universo apresentado na série pode se tornar algo real, o que traz uma dimensão ainda maior para o que a série representa ao tratar de feminismo, fanatismo religioso e ciência. Sabe os discursos absurdos dos “cidadãos de bem” comentaristas de Facebook? Pois bem, os apoiadores dessa nova realidade apresentada pela série parecem uma versão piorada desses comentaristas.

O roteiro da série não dá espaços para firulas ou gorduras. É mostrado apenas o necessário, e da forma mais bem trabalhada possível, evitando a série de cair em diálogos expositivos e pouco inspirados.

Madeline Brewer e Elisabeth Moss

Madeline Brewer e Elisabeth Moss

O sucesso do roteiro da série parte do bom trabalho do elenco, repleto de atuações pontuais. A começar por Elisabeth Moss, que é uma atriz incrível consegue trazer uma protagonista competente. Moss trabalha Offred como uma mulher que esconde muita raiva da situação em que se encontra, mantendo sempre a mesma cara, aceitando ser submissa por não ter outra escolha.

O fato da série ser narrada pela personagem de Moss traz à tona esses sentimentos de raiva, e um pouco de rancor também. Mais uma vez, a série não vai além do necessário e não usa a narração para ficar explicando pontos para o público. The Handmaid’s Tale prefere mostrar do que falar e, quando fala, não trata o espectador como burro.

A relação que Offred estabelece com as pessoas a sua volta também é bem trabalhada e Moss tem uma boa química em cena com o resto do elenco. Em diversos momentos, é evidente que Offred não confia em Nick (Max Minghella), o motorista da família, e que é um erro se abrir com Ofglen (Alexis Bedel), uma aia de uma família diferente e companheira de caminhada de Offred. Mas a personagem se permite essas falhas e confiar demais em quem não deve, ou confiar de menos em quem quer ajudar sua situação.

Essa dúvida sobre quem é amigo e quem é inimigo só faz The Handmaid’s Tale crescer em qualidade. Você sabe e os personagens sabem que uma palavra mal colocada pode desencadear uma situação complicada, então a série trabalha essa tensão de modo subjetivo. Você sabe que há uma bomba prestes a estourar e que irá mudar os rumos da história, a tensão fica em não saber quando, como e porquê essa bomba irá estourar.

Elisabeth Moss e Max Minghella

Elisabeth Moss e Max Minghella

Para coroar uma série que acerta em roteiro e atuação, The Handmaid’s Tale ainda entrega uma fotografia inteligente. Mesclando bem a paleta de cores mais frias e os enquadramentos que refletem a situação emocional dos personagens.

É muito comum o uso da câmera na mão nos momentos em que Offred está sozinha, demonstrando toda a instabilidade emocional da personagem ao se despir de todas as aparências quando fica sozinha. Enquanto que nos momentos em que Offred está na presença daqueles que a possuem, a câmera está estática, com os personagens sempre no centro de planos que são mais longos, como se alguém tivesse o controle da situação e impedisse a própria série de apresentar alguma personalidade na fotografia.

The Handmaid’s Tale é uma sucessão de acertos técnicos e com uma narrativa envolvente. Sim, a série é essa Coca-Cola toda. Ainda não ganha o título de a “melhor série de todos os tempos” (isso não existe, gente), mas é forte candidata a melhor série de 2017.

Já assistiu The Handmaid’s Tale? Deixe seus comentários!


Este post só foi possível com a ajuda de Murilo Rosella e muitas outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui.

Comentários

comentário(s)