‘The Post – A Guerra Secreta’ mostra o jornalismo como ele deve(ria) ser

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Uma prática até que comum na faculdade de jornalismo é os professores exibirem filmes para os alunos em determinadas situações. Os títulos escolhidos sempre tendem a mostrar um aspecto importante da profissão, sem necessariamente, ser um filme de jornalismo.

Me recordo que foi lá que conheci o filme 12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men). O filme de 1958 foca na sentença de um jovem porto-riquenho acusado de matar o próprio pai. Seu destino é posto na mão de 12 jurados, sendo 11 favoráveis a sua condenação e um que gostaria de rever melhor os fatos.

Olhando de forma crua, talvez esse filme fosse melhor aproveitado para uma turma de direito, mas ele vai mais fundo do que isso. 12 Homens e uma Sentença mostra ao futuro jornalista a importância da apuração dos fatos e não aceitar apenas uma versão da história. E esse foi apenas um dos filmes “tradicionais” do curso.

Mas para a nossa sorte, outros bons títulos vem surgindo, a ponto de dar um descanso para Cidadão Kane (1941), o clássico maior. Em 2015, Spotlight – Segredos Revelados encantou, mostrando o jornalismo em sua essência. O filme, protagonizado por Mark Ruffalo e Rachel McAdams, mostra uma investigação feita pelo The Boston Globe e vai na alma da profissão.

2018 chegou e ganhamos mais um filme assim que, apesar de não ser tão impactante quanto Spotlight, ainda nos faz pular da cadeira em alguns momentos. Esse é o caso de The Post – Guerras Secretas, roteirizado por Liz Hannah e Josh Singer, o mesmo roteirista de Spotlight – Segredos Revelados.

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Tom Hanks e Meryl Streep, protagonistas do filme, em cena

O longa é baseado em um episódio real que ocorreu durante a Guerra do Vietnã. Ele conta a história do The Washington Post durante o escândalo do Pentagon Papers. O Pentagon Papers é um capítulo da história americana em que 14 mil páginas do governo dos EUA sobre a história do planejamento interno e da política nacional sobre a guerra ali vigente foram vazadas clandestinamente. Basicamente, eles sabiam que não poderiam vencer a Guerra do Vietnã e, mesmo assim, ficaram por lá durante 20 anos.

O furo de reportagem fora dado pelo The News York Times, concorrente do Post. Agora coube a eles correr atrás do “prejuízo”. O filme se passa no momento mais complicado da história do jornal, como é retratado no filme. Ele está no processo de se tornar um jornal nacional, tendo Katharine Graham (Meryl Streep) como pilar de sustentação deste front.

Enquanto ela batalha fora da redação, dentro, quem dita as regras é Ben Bradlee (Tom Hanks). Ele funciona como motor do filme, batendo de frente com Katharine diversas vezes. Enquanto ela mantém uma postura mais cautelosa em relação ao jornal, Bradlee defende a autonomia da redação. Principalmente quando eles conseguem por as mãos nos documentos vazados.

Uma imagem, 8 Oscar's. Steven Spielberg, diretor do The Post, conversa com seus comandados

Uma imagem, 8 Oscar’s. Steven Spielberg (centro), diretor do The Post, conversa com seus comandados

Além de todo o lado jornalístico que o filme traz, o mais impactante está nas consequências. Vale lembrar que não é spoiler se está na história real, mas tentarei contar sem entregar nada.

Após a revelação destes papeis, Richard Nixon (1913-1994) tenta se impor e censurar as publicações a partir de então, o que acalora ainda mais a população, que já estava descontente por conta do conflito armado na ásia.

Em The Post, o jornalismo é retratado da maneira como ele deveria ser. A mensagem passada é que, independente da situação, ele deve prestar serviço para a população, doa a quem doer. Nem que para isso, governos sejam colocados a prova. Interesses são deixados para traz, visando apenas a verdade e a informação.

Como muito bem dito no filme, “os Pais Fundadores deram à imprensa livre a proteção que precisa para exercer seu papel essencial em nossa democracia. A imprensa serve aos governados, não aos governantes“.

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Apesar de não ser a melhor produção de Steven Spielberg, o filme tem seus méritos, e muito. A prova disso foi o “aval” dado pelo Oscar. O filme disputa como “Melhor Filme” e rendeu a Meryl Streep sua 21º indicação. Infelizmente, nenhum deles deve ganhar.

Para os fãs de comunicação e investigação, o filme é obrigatória. Para quem não é, eis a chance de começar a se interessar pelo tema.

The Post – A Guerra Secreta estreou nos cinemas na última sexta-feira, 26 de janeiro.


Este post só foi possível com a ajuda de André Cabrero. Ele e muitas outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui

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