Vale Ver | A Gente se Vê Ontem

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Não é novidade pra ninguém que a ficção-científica é uma das muitas maneiras que as artes encontraram para debater problemas reais. Livros como Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein, séries como Battlestar Galactica e filmes como Jogos Vorazes abordam temas corriqueiros com equivalentes doses de eficácia. A Gente se Vê Ontem, filme da Netflix, entra nesse panteão como uma grata surpresa ao ser tudo, menos um protocolar filme de ficção-científica.

No filme dirigido pelo estreante Stefan Bristol e com produção de Spike Lee (Infiltrado da Klan), acompanhamos CJ (Eden Duncan-Smith) e Sebastian (Dante Crichlow), dois prodígios da ciência que estão enfim chegando à criação de um dispositivo capaz de viajar no tempo.

Quando o irmão de CJ, Calvin (Astro), é morto em um dos frequentes casos de violência policial contra negros, ela e o amigo decidem voltar no tempo para impedir a morte do jovem.

A Gente se Vê Ontem (See You Yesterday, 2019) não perde tempo em apresentar seu denso contexto político e social, trazendo para a luz muito do debate sobre violência policial e o movimento #BlackLivesMatter. E é justamente por isso que o filme se mostra tão bem-sucedido.

Toda a temática sci-fi é posta em segundo plano quando se tem a consciência que A Gente se Vê Ontem não é um filme de viagem no tempo — ponto negativo pela Netflix tê-lo vendido apenas como tal — e sim sobre toda a tensão racial que ocorre nos Estados Unidos e no mundo. CJ e Sebastian voltando no tempo repetidas vezes na tentativa de salvar Calvin e esbarrando nos mesmos resultados e outros até piores mostram que a violência policial contra o jovem negro não é algo que uma simples viagem no tempo possa resolver.

Em A Gente se Vê Ontem, temática racial se mistura muito bem com sci-fi

Em A Gente se Vê Ontem, temática racial se mistura muito bem com sci-fi

É um problema encrustrado na estrutura social dos Estados Unidos que não é facilmente resolvido enquanto a polícia e governantes não começar a ver pessoas negras como seres humanos dignos.

Essa leitura pode indicar que A Gente se Vê Ontem é um filme desesperançoso, mas ele não necessariamente se apresenta como tal. Na verdade, ele sustenta muito do seu roteiro na resiliência presente nas comunidades negras, mais uma abordagem certeira do filme. O filme explora o turbilhão de sentimentos que passam na cabeça de quem sofre injustiças por ser quem é e de como tais sensações podem ser convertidas para ações que combatam a realização das novas injustiças.

A maior parte do sucesso de A Gente se Vê Ontem vem da sua dupla de protagonistas. Eden Duncan-Smith apresenta uma CJ cativante pela sua energia e que funciona em contraponto à personalidade mais contida do personagem de Dante Chriclow.

Entendo que a aparição de Michael J. Fox no papel de um dos professores dos protagonistas mais serve como um easter egg do que necessariamente algo vital para o bom funcionamento do filme, mas pode ter sido uma oportunidade desperdiçada não o trazer para mais perto da trama. Entretanto, minha queixa é mero preciosismo, A Gente se Vê Ontem funciona por ser contido em sua história e personagens.

Talvez a maior crítica para com o filme fique com o seu final aberto demais, a insatisfação por uma resolução mais enxuta pode acabar diluindo muitos dos temas que o filme aborda. E é um pensamento injusto com tudo o que o filme construiu.

É um final aberto demais? É. Poderia ter sido melhor trabalhado? Acredito que sim, mas o resultado é satisfatório. É um final que pede ao espectador para que ele não desista da luta, que pede por sonhar e tentar fazer acontecer dias melhores. É um fim esperançoso para um filme cativante, delicado, divertido e extremamente importante.

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