Vale Ver| Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha

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Quando fiz o Vale Ver sobre Doentes de Amor, falei sobre as pequenas surpresas que o Oscar nos proporciona. Não tanto pelo grandes filmes, cheios de garbo e elegância, já que você sempre vai esperar algo deles. Falo muito por conta dos títulos que figuram o fim da lista, indicados a poucas ou a apenas uma categoria.

Victoria e Abdul, lançado em novembro passado, foi um desses títulos. O longa de quase duas horas de duração, e que no Brasil ganha o subtítulo de O Confidente da Rainha, me impressionou. Na edição do Oscar, que acontece no próximo dia 4, ele concorre em apenas duas categorias técnicas, mas isso não quer dizer que ele não conte uma história de amizade incrível.

O filme é baseado em fatos reais. Ele se passa no fim do século 19 e descreve a amizade entre a Rainha Vitória, que comandou a Inglaterra entre 1837 e 1901, no período conhecido por Era Vitoriana, e Abdul Karim, um súdito indiano.

Na esquerda, um dos poucos registros da verdadeira Rainha Vitória ao lado de seu amigo Abdul. Na direita, Judi Dench e Ali Fazal

Na esquerda, um dos poucos registros da verdadeira Rainha Vitória ao lado de seu amigo Abdul. Na direita, Judi Dench e Ali Fazal

O longa começa com a vinda de Abdul (Ali Fazal) e Mohammed (Adeel Akhtar) para a Inglaterra, como representantes da Índia, que fora colonizada pelos ingleses. A ideia é de que fosse uma visita rápida. Era chegar, entregar a homenagem para a Rainha e voltar para a casa, mas não foi bem assim.

Ambos surgem para Victoria, muito bem interpretada por Judi Dench, como pontos coloridos em uma tela branca. Por mais simples que sejam, eles se destacaram perante a massa cinzenta da corte inglesa e o que seria apenas o serviço de um dia, acabou estendido perante desejo de Vossa Majestade.

Apesar de serem uma dupla, a grande virada da história acontece em prol de Abdul. Ao servir a monarca em uma festa, o súdito tem o ímpeto de se ajoelhar e beijar os pés da Rainha que, apesar do susto, o torna seu empregado particular.

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O que parecia um desejo incomum de uma Rainha em seus últimos anos de vida, acaba se tonando uma bela amizade. Com sua simplicidade e um jeito totalmente destoante da corte, Abdul, aos poucos, vai quebrando as barreiras que a Rainha tinha.

Ao agir como fiel súdito, ele vai apresentando um universo totalmente novo para a monarca, fora da bolha que era seu castelo. Abdul é o responsável por iniciar uma espécie de intercâmbio cultural. Além de contar sobre as coisas de sua terra, ele ganha o título de Munshi (uma espécie de professor) e mostra para Vitória um novo mundo, que incluem falas e escritas da região. Até mesmo a religião é tema do assunto.

Só que como acontece em todo bom filme, nem tudo são flores nesta relação. Conforme seu nível de prestígio vai aumentando com Vossa Majestade, outros membros da corte passam a ver isso de maneira desconfiada. Onde já se viu um súdito gozar de tanta confiança com a Rainha?

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E o que começa de forma velada, descamba para ataques diretos. E é claro que a Rainha não gosta destas atitudes, tomadas principalmente por Bertie, o Príncipe de Gales. Interpretado por Eddie Izzard, Bertie é o filho mais velho da Rainha e o próximo da linhagem ao assumir o trono.

A atuação de Izzard funciona muito bem. Ele entra como destaque entre os personagens detestáveis do filme. Existiria muitas maneiras de lidar com a relação de amizade entre Rainha e súdito, mas a maioria busca olhar pelo viés de seu próprio interesse.

Apesar de toda essa resistência, a monarca busca defender o amigo a todo custo. E isso vai até o fim de sua vida, em 1901. Quando isso acontece, a história de Abdul na Inglaterra também ganha um fim. Ele é mandado de volta para sua terra natal e muito de sua história com a Rainha é apagada. Veja o filma e entenda o motivo.

Mesmo trabalhando essa amizade de forma tão leve e sutil, o filme ainda tinha espaço para drama nas sub-tramas. Ao se tornar criado da Rainha, Abdul “esquece” de onde veio e, principalmente, com quem ele veio.

Enquanto se faz presente na corte, seu amigo Mohammed cai completamente no esquecimento. Para quem veio à Inglaterra como segunda opção, seu fim trágico é uma perda triste, a ponto de você sentir certa raiva de Abdul.

Apesar disso, o filme que mostra uma amizade incomum é encantador. Até mesmo em momentos mais tensos, a ternura se faz presente. Ele está indicado nas categorias Melhor Maquiagem e Melhor Figurino. Infelizmente, a chance de vitória é bem pequena. Os principais concorrentes são, respectivamente, Dunkirk e Trama Fanasma.

Dirigido por Stephen Frears, Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha, é um filme que vai além de vestes e maquiagens. Vale muito a pena você ver.


Este post só foi possível com a ajuda de Marilene Mello. Ele e muitas outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui

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