Waco: uma minissérie que cheira à Emmy

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O cerco à comunidade Monte Carmelo na cidade de Waco, Texas, em 1993 foi um dos momentos mais emblemáticos da história americana. A seita, composta por adeptos do Ramo Davidiano, tinha na figura de David Koresh um líder carismático pelo qual valia a pena morrer por ele.

Entre 28 de fevereiro e 19 de abril daquele ano, agentes do FBI e do ATF (uma agência governamental responsável por investigar o comércio e produção de álcool, tabaco e explosivos) se dedicaram a um cerco ao redor da comunidade comandada por Koresh. Incitados por denúncias de que Koresh e seus seguidores tenham ao longo dos anos acumulado armamento ilgeal e abusado sexualmente de crianças que viviam no local.

No último dia do cerco, 76 davidianos morreram num incêndio que até hoje não foi confirmado ter sido começado pelos próprios integrantes da seita ou de forma acidental pelas constantes investidas do FBI e ATF. Não apenas a causa do incêndio permanece incógnita, as acusações de abuso infantil também nunca foram confirmadas.

O acontecimentos de Waco incitaram todo um debate nos Estados Unidos sobre liberdade religiosa e a insistência da ATF (desacreditada após os eventos de Ruby Ridge em 1992, que também envolviam integrantes do Ramo Davidiano), visto que diversas provas apontavam para o despreparo dos agentes em lidar com situações do gênero.

Waco já foi explorado em diversos momentos pelo cinema, TV e literatura e a minissérie do Paramount Network é apenas mais uma produção a explorar esse momento controverso.

Michael Shannon vive Gary Noesner, agente do FBI especialista em negociações. O livro escrito pelo verdadeiro Gary Noesner serviu de base para Waco, minissérie do Paramount Network

Michael Shannon vive Gary Noesner, agente do FBI especialista em negociações. O livro escrito pelo verdadeiro Gary Noesner serviu de base para Waco, minissérie do Paramount Network

A minissérie acompanha David Koresh (Taylor Kitsch), líder do Monte Carmelo, e Gary Noesner (Michael Shannon), agente do FBI especializado em negociações.

A história começa com Noesner participando das negociações em Ruby Ridge, acontecimento que também serviu de estopim para o que ocorreu em Waco e os debates posteriores. Enquanto isso, Koresh sente uma crescente de perigo pelo que aconteceu em Ruby Ridge se repetir com ele e seus seguidores.

Além disso, Koresh lida com a gravidez de uma de suas esposas (Andrea Riseborough)  e começa o processo de catequizar David Thibodeau (Rory Culkin), um jovem músico e que futuramente se torna um dos poucos sobreviventes ao cerco de Waco.

Tendo um elenco excelente e uma fotografia interessante, Waco já nasceria indicada à Emmys se não fosse pelo péssimo roteiro do primeiro episódio. A minissérie é criação de John Erick Dowdle e Drew Dowdle, dupla de filmes como Horas de Desespero (2015) e Quarentena (o remake de 2008 do terror espanhol [REC]), e o trabalho dos irmãos surge sempre com grandes potenciais e péssimas execuções.

Quem ouviu o Cineclube sobre Horas de Desespero presenciou minhas críticas sobre como os irmãos prestaram um desserviço ao retratar a cultura da região aonde o filme se passava, reafirmando estereótipos negativos sem dar profundidade à uma cultura muito marginalizada. A balança dos irmãos pesa mais para o lado negativo, infelizmente.

Meu receio com Waco é que os irmãos Dowdle optem por pender para um lado ou outro de uma história controversa. Humanizar a figura de David Koresh é tão importante quanto humanizar Gary Noesner, mas isso não é o mesmo que idealizá-los, ou transformá-los em vilões e mocinhos.

Melissa Benoist e Taylor Kitsch em cena de Waco. Na minissérie, Benoist vive uma das esposas de David Koresh (Kitsch), Rachel Koresh

Melissa Benoist e Taylor Kitsch em cena de Waco. Na minissérie, Benoist vive uma das esposas do personagem de Kitsch, Rachel Koresh.

Existem nuances na história de Waco que pedem para serem exploradas com competência e cuidado, e o festival de diálogos mecânicos não facilita tal exploração. Todo o núcleo da ATF é uma sucessão de diálogos que vomitam as intenções dos agentes. Não existem subtextos, não existem motivações ocultas, é tudo raso e enfadonho.

Taylor Kitsch e Michael Shannon fazem o possível com o que o roteiro oferece. Kitsch consegue conferir à Koresh uma personalidade atraente e carismática logo nos primeiros minutos do episódio e desponta como a melhor atuação até o momento. Shannon não teve muito o que fazer, espera-se que utilizem mais o talento do ator.

O mesmo vale para os personagens de John Leguizamo, Melissa Benoist e Shea Wingham. Leguizamo, como o agente disfarçado do ATF Robert Rodriguez, nem apareceu no primeiro episódio enquanto que a personagem de Benoist só fez figuração como uma das esposas de Koresh. Uma pena, visto que Melissa Benoist (a Supergirl da CW) foi um dos motivos para acompanhar a minissérie.

O personagem de Wingham, Richard Rogers, agente do FBI, promete servir de contraponto à personalidade racional de Noesner, o que pode render bons momentos no decorrer da minissérie.

Nesse primeiro momento, Waco parece uma minissérie pretensiosa cheia de atuações dignas de figurar em listas de premiações como Emmy e Globo de Ouro. Entretanto, só ator bom não segura a produção, precisa melhorar muito o roteiro pelos próximos cinco episódios.

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Este post só foi possível com a ajuda de Murilo Rosella. Ele e muitas outras pessoas que acreditam no Junta 7 e tornaram-se nossos padrinhos Jotinhas. Colabore você também clicando aqui

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